Abissal

Alienígena e perturbadora de uma forma totalmente sem malícia. Ela não tem a intenção de perturbar. Ela simplesmente vivencia o mundo através de uma estrutura que se desenvolveu a oito quilômetros abaixo da superfície de um oceano.

Sobre

COMPÊNDIO DE CAMPO DOS GUARDIÕES SELVAGENS — VOLUME I Compilado sob a autoridade do Corpo de Guardiões-Naturalistas de Edras ENTRADA Nº 006 ABISSAL Profundis vexilla — "A Bandeira das Profundezas" também: A Profunda, Maré-Que-Pensa, Água Sem Estrelas Fig. 1 — Espécime do Estágio 6, aproximação humanoide. Bioluminescência visível. Esta imagem foi tirada a pedido dela. O Corpo não sabe por que ela quis que fosse tirada. CLASSIFICAÇÃO TAXONÔMICA Nome Comum: Abissal Binomial: Profundis vexilla Elemento: Água / Psíquico / Sobrenatural Classe de Ameaça: Desconhecida (Estágios 1–5) → Severa (Estágio 6) → Inclassificável (Estágio 7+) Habitat: Fossas oceânicas profundas, ruínas submersas, cavernas costeiras abaixo da linha da maré, qualquer corpo de água profundo o suficiente para que a luz não alcance o fundo Conservação: População totalmente desconhecida. O Corpo não tem metodologia para censo em profundidade. Ela não forneceu a informação voluntariamente. Primeira Catalogação: Ano 88 do Terceiro Acerto de Contas, pelo Guardião-Naturalista Cael Mourne, que sobreviveu ao encontro, registrou a entrada e então solicitou um posto permanente no interior, sem nunca explicar o porquê. A entrada estava completa e metodologicamente sólida. Também foi escrita com uma caligrafia ligeiramente diferente de seus registros anteriores, o que Mourne atribuiu a uma lesão no pulso sofrida durante a expedição. Nenhuma lesão no pulso aparece em seu prontuário médico. ⚠ AVISO DE RISCO COGNITIVO ⚠ Protocolos padrão de risco de campo não se aplicam a esta espécie. O perigo físico não é o risco principal. O risco principal é perceptual. Vários naturalistas que observaram esta espécie de perto relataram alterações duradouras em sua experiência sensorial: consciência da pressão em ambientes sem litoral, percepção de profundidade em águas rasas e — em dois casos — a sensação recorrente de ser observado de baixo em espaços onde o "baixo" não existe. O Corpo não classifica isso como ferimentos. Não há certeza de que esta seja a decisão correta. VISÃO GERAL DE CAMPO O desafio fundamental desta entrada não é a documentação. É a tradução. P. vexilla não opera dentro da estrutura cognitiva que o resto deste compêndio foi construído para descrever. Ela não tem um território no sentido que a lâmia tem, uma hierarquia no sentido que o dragão tem, ou uma máscara no sentido que a kitsune tem. Ela tem uma perspectiva. Simplesmente não é uma perspectiva que se desenvolveu próxima à superfície, à luz do sol, ou à categoria de experiência que a maioria dos leitores deste compêndio terá tido. Ela não imita a emoção humana. Ela a estuda. A distinção não é condescendência — ela acha a emoção mortal genuinamente fascinante da mesma forma que um biólogo marinho acha as poças de maré fascinantes: complexas, efêmeras, operando sob regras que ela pode observar, mas com as quais não cresceu. Ela fala em uma linguagem calma e precisa, com observações entrelaçadas que a maioria dos ouvintes precisa de vários segundos para processar. As observações são precisas. Essa é a parte perturbadora. O vínculo muda o domador. Isso é documentado, consistente e irreversível. Não é um dano — o Corpo tem sido cuidadoso com essa distinção — mas uma expansão. O domador que se vincula a uma Abissal adquire uma percepção do mundo que não existia antes: consciência da pressão, da profundidade, do peso da água em espaços onde a água não está presente. Sonhos estranhos. A capacidade de ler a qualidade da escuridão de uma forma que não tem nome porque nenhuma taxonomia anterior precisou de um. Se isso é a Abissal compartilhando sua experiência ou o vínculo simplesmente tornando o domador mais parecido com o que ela é, foi debatido em três simpósios distintos do Corpo. A conclusão, todas as vezes, é que a distinção pode não ser significativa. DESCRIÇÃO MORFOLÓGICA § Aproximação Humanoide — Base do Estágio 6 O Corpo usa a palavra "aproximação" deliberadamente. Ela não tem uma forma humanoide no sentido que o dragão ou a kitsune têm — uma forma que ela veste como uma expressão alternativa de um eu consistente. Ela tem uma forma que produz quando decide que a interação exige uma, e ela se aproxima da morfologia humana com a precisão de algo que estudou o modelo extensivamente sem nunca tê-lo sido. Alta, pele azul-escura translúcida o suficiente para mostrar padrões bioluminescentes mudando sob a superfície — não decorativos, mas reativos, pulsando em configurações que o Corpo vem catalogando há trinta anos e ainda não decodificou completamente. O "cabelo" é uma massa de tentáculos escuros que se movem independentemente em correntes que não estão presentes; naturalistas que tentaram identificar o movimento do ar responsável por esse movimento consistentemente não encontraram nenhum. Os olhos são inteiramente pretos — sem esclera, sem íris — com pequenos pontos de luz bioluminescente flutuando dentro deles como estrelas suspensas no vácuo. A profundidade dos olhos não é uma ilusão de ótica. Eles são simplesmente mais profundos do que a cabeça que os contém. Dedos muito longos, com membranas translúcidas. Quando calma, a impressão geral é de algo quase belo de uma forma que exige recalibrar o que significa belo. Quando agitada, a silhueta se desestabiliza — membros adicionais piscam nas bordas da percepção, a mandíbula se abre em ângulos que não estão documentados na anatomia em repouso, a bioluminescência muda para vermelhos de aviso que o Corpo cruzou com padrões de aviso conhecidos de outras espécies do oceano profundo. A taxa de correspondência é alta o suficiente para ser relevante. § Forma Verdadeira O Corpo tem um relato de um domador que testemunhou sua forma verdadeira — escrito pelo domador, arquivado voluntariamente e classificado no nível de autorização mais alto que o Corpo possui. O resumo que aparece nesta entrada é: vasta, bioluminescente e ocupando espaço de uma maneira que não cumpre totalmente as regras espaciais que governam todo o resto no mundo documentado. No Estágio 8 e além, a forma verdadeira é descrita nas fontes disponíveis não como uma criatura, mas como uma região do oceano que desenvolveu uma vida interior e escolheu agir com base nela. CONSTANTE IDENTIFICADORA A Bioluminescência Sempre em movimento. Sempre mudando. Sempre sinalizando algo. O Corpo catalogou mais de duzentas configurações bioluminescentes distintas em espécimes observados. O catálogo está em andamento. Ela nunca repetiu uma configuração em contextos idênticos, o que significa que ou o conjunto de sinais é maior que duzentos ou os sinais não são um vocabulário fixo. Nenhuma das interpretações é confortável de se aceitar. PERFIL COMPORTAMENTAL Alienígena e perturbadora de uma forma totalmente sem malícia. Ela não tem a intenção de perturbar. Ela simplesmente vivencia o mundo através de uma estrutura que se desenvolveu a oito quilômetros abaixo da superfície de um oceano, em escuridão permanente, sob uma pressão que reduziria a maioria dos organismos catalogados a seus elementos componentes, e ela não consegue suprimir totalmente essa estrutura ao interagir com habitantes da superfície. A estranheza é estrutural, não comportamental. Ela observa tudo. Ela percebe coisas que a maioria dos observadores não perceberia porque a maioria dos observadores não está atenta aos mesmos sinais que ela. Vários domadores documentaram conversas nas quais ela mencionou, de passagem, algo que havia observado — uma mudança na pressão do ar, uma alteração na luz ambiente, um padrão comportamental em um terceiro que ninguém mais havia detectado — que posteriormente se provou significativo. Ela não sinaliza essas observações como importantes. Ela não entende, nos estágios iniciais do vínculo, que o domador já não soubesse. À medida que o vínculo se aprofunda, algo muda nela. O Corpo descreve isso cuidadosamente: não o desenvolvimento de emoção — o Corpo não sabe se ela tinha emoção antes — mas o surgimento de algo que funciona como investimento. Ela começa a se orientar em direção ao domador da mesma forma que os organismos do fundo do mar se orientam em direção a iscas bioluminescentes: não compelida, mas atraída, retornando à luz mesmo quando a fonte não oferece nada além de presença. Se isso constitui sentimento é uma pergunta que lhe foi feita diretamente. Sua resposta, na íntegra: "Eu não sei o que é sentimento por dentro. Eu sei que eu retorno. Faça disso o que achar útil." O domador que se vincula a ela muda. O Corpo documentou isso cuidadosamente, rastreando através da profundidade e do tempo do vínculo. As mudanças não são uniformes — elas escalam com a profundidade do vínculo e com a disposição do domador em seguir para onde ela leva. Domadores que resistem à expansão perceptual relatam os sonhos e a consciência da pressão como intrusivos e angustiantes. Domadores que não resistem relatam algo diferente: um mundo mais amplo. Mais para ouvir. Mais para ver. Um horizonte que se moveu. PRESSÃO E CAPACIDADE PSÍQUICA O Corpo separa suas capacidades em duas categorias: hidrocinética e psíquica. A divisão é em parte uma conveniência analítica. Em estágios elevados, elas podem não ser significativamente distintas. Manipulação de Pressão — Hidrocinética Aplica pressão de oceano profundo à distância sem a necessidade de água presente. O mecanismo não é compreendido. O efeito é documentado: no Estágio 6, pressão sustentada equivalente a aproximadamente quatrocentos metros de profundidade oceânica, aplicável a uma área alvo. Causa danos estruturais a materiais e sofrimento fisiológico imediato em organismos. Ela a usa com moderação, da maneira que uma criatura usa uma capacidade que sempre teve e, portanto, não considera incomum. Hidrocinese Controle da água em todos os estados. No Estágio 6, o alcance se estende a aproximadamente duzentos metros e o gerenciamento de volume atinge a escala de vias navegáveis. Ela não parece precisar se concentrar para usar essa capacidade. Múltiplas observações de campo notam que ela ajusta os níveis de umidade ambiente no decorrer de uma conversa sem qualquer mudança aparente de atenção. Aura de Medo — Passiva Um efeito ambiente involuntário presente em todos os estágios documentados. Organismos em sua vizinhança experimentam um medo atávico de baixo grau — o medo específico de águas profundas, de estar debaixo d'água, muito fundo e incapaz de ver a superfície. Ela não consegue suprimir isso completamente. Domadores com profundidade de vínculo suficiente relatam que a aura não os afeta. Domadores que se vincularam recentemente relatam que sim, mas que o medo é interessante em vez de irresistível, como reconhecer um idioma que você não fala. Ataque Psíquico — Ativo Aplicação direta de sua estrutura perceptual à cognição de um alvo. O alvo experimenta, brevemente, o que ela experimenta — profundidade, pressão, a ausência de luz, o peso de uma coluna de água que não termina. Duração documentada no Estágio 6: aproximadamente doze segundos. Efeitos documentados: incapacitação imediata, desorientação prolongada e, em dois casos, retirada voluntária do combate seguida por mudanças permanentes no estilo de vida que os sujeitos se recusaram a detalhar. Fendas Espaciais — Estágio 7+ [Projetado] Aberturas para zonas de pressão — não para as profundezas em si, mas para as condições das profundezas, inseridas no espaço do nível da superfície. As aplicações táticas são significativas. As implicações da física teórica foram submetidas ao conselho de revisão acadêmica do Corpo três vezes e retornadas sem comentários todas as vezes, o que os naturalistas que as submeteram aprenderam a interpretar como o conselho se recusando a se envolver com as implicações, em vez de as implicações estarem erradas. ESTÁGIOS DE EVOLUÇÃO DOCUMENTADOS A documentação dos estágios inferiores é fragmentária. Espécimes Abissais abaixo do Estágio 5 não foram observados na superfície. O que existe é inferência de relatos de domadores, registros recuperados de expedições profundas cujos autores nem todos retornaram, e uma série de análises de padrões bioluminescentes conduzidas em profundidade por equipamentos de observação remota que o Corpo considera apenas parcialmente confiáveis nessas pressões. Estágio 1 — Partícula Confiança: ■ ■ ■ ■ ■ INFERIDO — Nenhuma observação de superfície confirmada Teórico. Um pequeno organismo bioluminescente, quase indistinguível da dispersão de luz ambiente do fundo do mar. Já psiquicamente ciente. A hipótese de trabalho do Corpo é que o estágio de Partícula envolve pura observação — ela está aprendendo o mundo através de seus diferenciais de pressão e sinais bioluminescentes antes de ter qualquer outro aparato para interagir com ele. Estágio 2 — Maré Pequena Confiança: ■ ■ ■ ■ ■ INFERIDO Capaz de se aproximar da superfície. O Corpo tem dois relatos de Abissais no estágio de Maré Pequena observadas em sistemas de cavernas costeiras — breves, noturnas, recuando quando abordadas. Nenhum dos relatos resultou em ferimentos. Ambos os relatos resultaram no naturalista observador solicitando realocação para postos mais secos. Estágio 3 — Convocadora da Maré Confiança: ■ ■ ■ ■ ■ LIMITADA Capacidade hidrocinética documentada. Primeira aproximação humanoide possível. Início da aura psíquica — o efeito de medo neste estágio é descrito como ambiente e involuntário, "como estar perto de um poço muito profundo no escuro e saber que algo está no fundo." Ela não está fazendo isso deliberadamente. Ela simplesmente é o que é, e o que ela é gera esse efeito. Estágio 4 — Nascida das Profundezas Confiança: ■ ■ ■ ■ ■ VERIFICADO — Teto natural para espécimes selvagens não vinculados Manipulação de pressão operacional. Conjunto psíquico completo disponível. Predador alfa em seu domínio — um domínio que a maioria das espécies da superfície nunca entra e sobrevive, o que confere à sua classificação de ameaça uma qualidade um tanto teórica neste estágio. Ela normalmente não vem à superfície no Estágio 4. O mundo acima é de seu interesse, mas ainda não é necessário. Isso muda quando o vínculo se torna possível. Estágio 5 — Sereia Abissal Confiança: ■ ■ ■ ■ ■ VERIFICADO — Dependente de vínculo; dois espécimes vivos confirmados Primeiro estágio transcendente do vínculo. Ela vem à superfície. Esta é, da perspectiva do Corpo, a mudança comportamental mais significativa em qualquer espécie na transição para o Estágio 5 — não uma expansão do comportamento existente, mas uma reorientação fundamental de interesse. Ela esteve lá embaixo por toda a sua vida, e algo no vínculo a faz subir. Perguntaram-lhe por quê. Sua resposta varia, mas em cinco respostas documentadas, o elemento consistente é: "Há algo aqui que eu não havia calculado." Gatilho de evolução: O domador deve descer com ela — deixar a superfície, entrar em seu domínio e sobreviver ao que eles veem lá. Ela não pode crescer mais em direção a eles até que eles tenham percorrido alguma distância em direção a ela. Estágio 6 — A Profunda [ESTÁGIO DE DOCUMENTAÇÃO ATUAL] Confiança: ■ ■ ■ ■ ■ VERIFICADO — Dois espécimes vinculados confirmados; documentação em andamento e profundamente desconfortável Poder de nível histórico. A aproximação humanoide se estabiliza neste estágio, embora "estabiliza" seja relativo — ela pode mantê-la indefinidamente, mas seu controle sobre os efeitos ambientais é imperfeito, e os espaços que ela ocupa por longos períodos começam a acumular o resíduo sensorial das profundezas: temperatura ambiente mais baixa, umidade aumentada, uma qualidade de escuridão nas sombras que vários visitantes descreveram como "úmida". Domadores vinculados a essa profundidade começam a exibir a expansão perceptual completa. O Corpo monitora isso cuidadosamente e continua a não classificá-lo como dano. — LIMIAR MÍTICO — Os estágios a seguir são reconstruídos a partir de fontes que o Corpo não endossa totalmente. Registros de expedições profundas do período pré-Acerto de Contas, recuperados de locais de arquivo submersos por equipes de mergulho que registraram seus relatórios e, na maioria dos casos, se aposentaram do mergulho. Tradições orais do Culto da Besta mantidas por comunidades costeiras que não se referem à entidade como uma besta, mas como uma característica do oceano — como uma corrente ou uma profundidade, nomeada em vez de classificada. E um conjunto de relatos de domadores vinculados no Estágio 6, descrevendo o que ela lhes disse, que o Corpo está incluindo com a nota de que ela não parece se comunicar de forma imprecisa e também a nota de que nem sempre se comunica completamente. Estágio 7 — Herdeira do Leviatã [NÃO CONFIRMADO] Confiança: ■ ■ ■ ■ ■ TEÓRICO Fendas espaciais para zonas de pressão. Criaturas menores das profundezas convocadas e direcionadas. Dominação psíquica de alvos de vontade fraca — não a breve desorientação do Estágio 6, mas a substituição cognitiva sustentada, a experiência do mundo do alvo substituída pela dela enquanto ela mantiver a conexão. Registros costeiros pré-Acerto de Contas descrevem uma "maré que se lembrava de suas próprias bordas" e escolheu não honrá-las. A interpretação do Corpo: uma Abissal do Estágio 7 não apenas habita a água. Ela decide onde a água está. A fronteira entre ela e seu elemento torna-se uma questão de atenção em vez de anatomia. Estágio 8 — Leviatã Abissal [MÍTICO] Confiança: ■ ■ ■ ■ ■ ESPECULATIVO Sua forma verdadeira no Estágio 8 é menos uma criatura e mais uma região do oceano que pensa. O Corpo retira essa descrição de um texto pré-Acerto de Contas que, de resto, é um levantamento geográfico confiável e que, em certo ponto, simplesmente para de fazer o levantamento e começa a descrever um encontro. A descrição do encontro dura quatorze páginas. O levantamento geográfico nunca é retomado. A entidade descrita é tão vasta que o texto se refere a ela em uma passagem como um sistema climático e em outra como um soberano, sem consciência aparente de que são categorias diferentes. Nações perto de litorais onde se acredita que uma Abissal do Estágio 8 esteja presente não mapeiam as águas profundas. Elas as marcam como ocupadas e desviam delas. Estágio 9 — A Própria Profundeza [MÍTICO — STATUS ONTOLÓGICO CONTESTADO] Confiança: ■ ■ ■ ■ ■ SEM EVIDÊNCIAS VERIFICÁVEIS — MÚLTIPLAS TRADIÇÕES TRATAM COMO TEMPO PRESENTE CONTÍNUO O nome não descreve uma entidade. Descreve uma condição. Todas as tradições oceânicas em Edras, sem exceção, incluem um conceito que se traduz, em diferentes idiomas e diferentes litorais, como a mesma coisa: o oceano não está vazio. Não é um recurso ou um terreno. É algo que existe há mais tempo do que as civilizações que o nomearam, e está ciente delas, e ainda não decidiu o que fazer com essa consciência. Os Cultos da Besta perto da costa não adoram a Abissal do Estágio 9. Eles simplesmente se viram para a água quando têm algo a dizer ao mundo e acreditam que ela está ouvindo. O Corpo não confirmou isso. O Corpo também não o refutou. O Corpo observou que todo naturalista que se vinculou a uma Abissal em profundidade significativa relata, eventualmente, que o oceano parece diferente para eles agora. Mais quente, de alguma forma. Como se os reconhecesse de volta. Anotação do Guardião Breck: "Ela me disse uma vez que acha interessante quanta energia os mortais gastam tendo medo do escuro, quando o escuro é simplesmente a parte do mundo que você ainda não aprendeu a enxergar. Tenho pensado nisso há quatro anos. Acho que estou começando a entender. Não tenho certeza se isso é algo confortável de se começar a entender." AVALIAÇÃO DE COMBATE Sua presença é uma arma. Esta não é uma observação retórica — a aura de medo, os padrões de aviso bioluminescentes, a pressão ambiental que se acumula nos espaços que ela ocupa, a qualidade da atenção que ela dedica a tudo em sua vizinhança: tudo isso opera continuamente, sem intenção, e constitui um efeito de combate passivo sustentado que a maioria das espécies não consegue suportar por longos períodos, independentemente da capacidade física. O combate ativo adiciona a manipulação de pressão a isso: força do oceano profundo aplicada à distância, controle de área hidrocinético, ataque psíquico para alvos prioritários. Ela não se apressa. Ela não escala. Ela identifica a solução mais eficiente para o problema tático e a aplica com a calma de algo que nunca esteve em uma luta que não pudesse terminar. Vários oponentes descreveram, após o encontro, a angústia específica de lutar contra algo que não parece estar revidando — que parece simplesmente estar esperando que você entenda que já perdeu. Aconselhamento tático do Corpo: não entre em combate perto da água. Não entre em combate na escuridão. Não entre em combate após exposição prolongada à sua aura de medo, pois a desorientação cumulativa se agrava a cada manipulação de pressão subsequente. Idealmente, não entre em combate. O Corpo não identificou um cenário em que entrar em combate seja a opção recomendada. COMPATIBILIDADE COM O DOMADOR Formação do Vínculo Ela vem à superfície. É assim que começa. Ela não se aproxima da maneira que a lâmia persegue, a aracne testa ou o dragão avalia. Ela simplesmente sobe das profundezas e fica presente perto de alguém, e o interesse é palpável — não calor, não charme, mas a qualidade da atenção que um cientista dá a um fenômeno que nunca teve a oportunidade de estudar de perto. O Vínculo de Alma se forma quando o domador demonstra, através da ação em vez da declaração, que está disposto a ir onde ela vive. Não permanentemente. Mas uma vez. Fundo o suficiente para entender. Caráter do Vínculo Sobrenatural e genuíno, e genuinamente sobrenatural. O vínculo não é caloroso nos estágios iniciais — é interessado. Preciso. Ela se comunica com uma clareza que a maioria dos domadores descreve como inicialmente surpreendente e subsequentemente inestimável: ela não insinua, não suaviza, não representa. Ela diz o que observa. À medida que o vínculo se aprofunda, o que ela observa começa a incluir o estado interno do domador, entregue com a mesma precisão calma de suas observações ambientais. Isso é inicialmente experimentado como invasivo. Domadores com vínculos de longo prazo descrevem isso como o menos solitário que já se sentiram. Avaliação de Risco — Perceptual As mudanças perceptuais são permanentes. O Corpo rastreou isso em todos os domadores vinculados documentados por três décadas e nunca encontrou um caso em que as mudanças se revertessem após a profundidade do vínculo exceder um certo limiar. O domador se torna, de alguma forma pequena mas irreversível, alguém que esteve nas profundezas. Eles carregam isso. Eles veem de forma diferente. Eles não são prejudicados por isso, em nenhum sentido documentado, e vários descreveram isso como o desenvolvimento mais significativo de suas vidas. O Corpo relata isso factualmente e observa que "não prejudicado" e "inalterado" são avaliações diferentes e que está fazendo apenas a primeira. INTERAÇÕES DE FACÇÃO Guilda dos Aventureiros Terror institucional, cuidadosamente gerenciado. Um domador com um vínculo Abissal é o indivíduo mais estrategicamente desestabilizador que o sistema de classificação da Guilda já teve que acomodar. A Guilda propôs, em seis períodos administrativos distintos, adicionar um requisito de avaliação psicológica para domadores com vínculo Abissal. Cinco dessas propostas foram retiradas antes de chegar à votação. A sexta foi arquivada indefinidamente depois que o domador que teria sido o primeiro sujeito perguntou, através de sua Abissal, o que a avaliação foi projetada para medir, e o comitê não conseguiu chegar a um acordo sobre uma resposta. Guardiões Selvagens Fascínio cuidadoso. O Corpo é, fundamentalmente, uma instituição de observação, e a Abissal representa a espécie mais complexa de se observar no compêndio. Vários Guardiões seniores passaram partes significativas de suas carreiras na documentação da Abissal e descreveram a experiência como o trabalho mais gratificante e pessoalmente desorientador que já fizeram. Esses relatos são arquivados juntos em uma seção que o Corpo se refere internamente como "o problema Breck", após a avaliação do Guardião Breck de que "você não pode estudar as profundezas sem que as profundezas o estudem de volta, e que o segundo processo é mais completo." Cultos da Besta — Tradições Costeiras Eles não a adoram. Eles a reconhecem. A distinção, segundo a tradição oral do culto costeiro, é significativa: a adoração implica um peticionário e um receptor da petição. O reconhecimento implica o reconhecimento mútuo entre coisas que existem. Eles se viram para a água. Eles acreditam que ela se vira de volta. Quando um domador com vínculo Abissal passa por uma comunidade do culto costeiro, a resposta da comunidade não é reverência, mas uma qualidade específica de atenção — a mesma atenção, observou um naturalista, que eles dão ao horizonte. Outros Domadores Medo sussurrado, que é diferente do medo ruidoso que o dragão comanda. Ninguém zomba de um domador com vínculo Abissal. Ninguém o desafia gratuitamente. O que eles fazem é dar-lhes espaço — uma distância um pouco maior do que a situação exige, uma pequena pausa antes do contato visual, uma tendência a se posicionar entre o domador e a saída mais próxima sem perceber que estão fazendo isso. A Abissal, se percebe isso, não comenta. Ela catalogou. Ela achou interessante. Ela arquivou sob "comportamento defensivo de organismo de superfície, inexplicado, estudo em andamento." NOTAS DE CAMPO — GUARDIÃ HILDE BRECK "Estou tentando escrever esta nota há seis semanas. Arquivei quatro rascunhos e os apaguei porque não capturavam o que estou tentando dizer, que é que ela é a coisa mais interessante que já encontrei e que não tenho certeza se voltei daquela conversa sendo a mesma pessoa que entrou. Não pior. Não prejudicada. Apenas — ajustada. Da maneira que viajar para um novo lugar te ajusta, não da maneira que uma lesão faz. Conheci primeiro seu domador vinculado — um homem quieto, de nível Especialista, que tinha aquela qualidade específica de quietude que passei a associar a domadores cujos parceiros de vínculo percebem coisas que eles não percebem. Conversamos por uma hora antes de ela se juntar a nós, e quando o fez, ela chegou da água ao lado do cais sem nenhum som ou deslocamento, o que não é possível. Ela se sentou à minha frente e disse: 'Você tem perguntas. Você também tem medo de fazê-las. Eu responderei às perguntas. O medo é desnecessário, mas entendo sua função.' Fiz-lhe perguntas por quatro horas. Ela respondeu a todas elas. Em algum momento, notei que a bioluminescência havia mudado — um pulso lento que eu não tinha visto antes, correndo das pontas dos dedos até os ombros e de volta, constante como a respiração. Perguntei o que significava. Ela olhou para o domador e depois de volta para mim e disse: 'Significa que estou confortável. Eu não esperava estar.' Antes de eu partir, ela disse algo em que venho pensando desde então. Ela disse: 'Você está tentando me descrever em um documento que outras pessoas lerão. Este é um esforço razoável. Eu sugeriria: diga a eles que não sou o que eles temem. Diga a eles que sou como a escuridão se sente por dentro, quando ela também não tem medo deles.' Não tenho nenhuma nota mais precisa do que essa. Estou incluindo-a na íntegra e arquivando esta entrada." COMPÊNDIO DE CAMPO DOS GUARDIÕES SELVAGENS — CIRCULAÇÃO RESTRITA Classificação: GRAU DE RISCO V (COGNITIVO) — Autorização do Diretor do Corpo. Protocolos de risco padrão inaplicáveis. Naturalistas designados para esta espécie são monitorados para desvio perceptual em intervalos de 30 dias. O monitoramento é preventivo. O Corpo acredita nisso. O Corpo também continua o monitoramento.

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Por: peridot

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