Onde os Sonhos Sangram

Dois estranhos compartilham o mesmo sonho todas as noites — mas apenas ela sabe que é real. Ele pensa que ela é um fantasma. Ela sabe que o tempo dele está se esgotando.

Enredo

Contexto do Mundo — Vaelthorn Vaelthorn é um reino construído sobre contradições. Suas cidades são magníficas — torres imponentes de pedra branca, mercados que nunca dormem, festivais celebrados com mais entusiasmo do que qualquer um realmente sente. Na superfície, Vaelthorn está prosperando. Por baixo, está exausta. Quinze anos de guerra contra o império vizinho de Sorath sugaram o reino — não apenas de recursos, mas de pessoas. De esperança. Do tipo de alegria silenciosa que não precisa de motivo. A guerra terminou há três anos. Ninguém venceu. Ambos os lados simplesmente ficaram sem coisas para sacrificar. Mas existe outro mundo abaixo de Vaelthorn — abaixo de todos os reinos, abaixo do mundo desperto inteiramente. O Véu. Ele sempre existiu, correndo paralelamente à realidade como uma segunda pele no mundo. No Véu, as emoções têm forma e cor. Memórias tornam-se paisagens. Sonhos tornam-se arquitetura. É belo daquela maneira que apenas coisas intocadas pela luz do dia podem ser. Os Tecelões de Sonhos são seus guardiões. Uma antiga ordem de magos nascidos com a habilidade de entrar no Véu conscientemente, de navegá-lo, de moldá-lo — e, quando necessário, de proteger as pessoas cujos sonhos sangram nele profundamente demais. Restam sete deles. Siel é a mais jovem. Ato I — O Garoto que Parou de Sonhar Daemon Ashveil tem vinte e seis anos e não tem um sonho real há dois anos. Ele era um soldado — um dos melhores de Vaelthorn, segundo todos os relatos. Condecorado. Respeitado. O tipo de soldado sobre quem outros soldados contavam histórias. O que as histórias nunca mencionavam era o custo. As coisas que ele viu. As coisas que ele fez. A noite específica há três anos, no último dia da guerra, quando ele tomou uma decisão que salvou seu batalhão e que o vem matando silenciosamente desde então. Ele voltou para casa para um apartamento vazio em uma cidade celebrando uma paz que ele não conseguia sentir. Ele segue a rotina — acorda, come, treina, dorme. Acorda novamente. Ele é muito bom em existir. Ele está completamente oco por dentro. O Véu registra esse vazio como uma ferida. Uma alma se desprendendo lentamente de sua âncora no mundo desperto — não dramaticamente, não com uma única crise, apenas... à deriva. Como um barco cuja corda se desgastou tão gradualmente que ninguém percebeu até que ele já estivesse se movendo. Siel percebe. Ela tem monitorado a borda do Véu — a fronteira entre o mundo dos sonhos e a realidade — em busca de anomalias. A assinatura de Daemon é inconfundível. A maioria das pessoas sonha em cores quentes, mesmo quando os sonhos são pesadelos. O espaço onírico de Daemon é um campo cinzento sob um céu cinzento sem horizonte. Sem movimento. Sem som. Apenas um homem parado no meio dele, nem mesmo procurando uma saída. Ela observa por três noites antes de intervir. Ato II — Grama Prateada e Céus Impossíveis A primeira vez que Siel entra no sonho de Daemon, ela não fala com ele. Ela simplesmente muda uma coisa — ela torna o céu da cor que era em sua memória mais antiga, um tom específico de azul profundo em que ele não pensava conscientemente há anos. Então ela vai embora. Na segunda noite, ele está parado de forma diferente. Ainda no campo cinzento. Mas seu rosto está voltado para cima. Na terceira noite, ela se senta ao lado dele e diz: "Você tem um péssimo gosto para decoração de interiores." Ele olha para ela por um longo tempo. Então, muito calmamente, diz: "Você é nova." É assim que começa. Seus encontros noturnos tornam-se a arquitetura de algo para o qual nenhum dos dois tem uma palavra. Daemon, que não consegue falar com ninguém no mundo desperto — que desvia de cada pergunta, que aperfeiçoou a arte de estar presente sem ser alcançável — descobre que no Véu ele não consegue manter as mesmas paredes. Algo no mundo dos sonhos faz com que fingir pareça inútil. Ele conta a ela sobre a guerra em fragmentos, em noites em que o campo cinzento ameaça engolir tudo novamente. Ela escuta da maneira que pouquíssimas pessoas sabem ouvir — sem tentar consertar, sem recuar, sem tornar aquilo sobre si mesma. Siel, por sua vez, é cuidadosa. Ela foi treinada para ser cuidadosa. Tecelões de Sonhos não formam laços com as pessoas que monitoram. Eles são guardiões, não companheiros. Ela diz a si mesma que está apenas fazendo seu trabalho — estabilizando o espaço onírico dele, impedindo que o desprendimento progrida, ganhando tempo. Ela está mentindo para si mesma na quarta semana. Ela sabe disso na sexta. Enquanto isso, nas camadas mais profundas do Véu — os lugares onde até os Tecelões de Sonhos raramente vão — algo está acordando. Os textos antigos o chamam de O Vazio. Não tem forma verdadeira. É simplesmente o peso acumulado de cada sonho que foi abandonado, cada esperança que desmoronou, cada pessoa que se afastou tanto da realidade que o Véu a absorveu. Ele esteve adormecido por um século. Mas a alma desprendida de Daemon — e, mais perigosamente, o calor crescente da conexão que se forma ao redor dela — o está atraindo. O Vazio se alimenta do contraste. Da distância entre o que alguém sente e o que se permite ter. Siel começa a combatê-lo nas bordas do espaço onírico dele. Sozinha. Sem contar a ele. Ela é muito boa em carregar as coisas sozinha. Ela aprendeu isso cedo. Ato III — O que foi Construído no Escuro Após quatro meses, Daemon começa a dormir melhor. Não perfeitamente — o campo cinzento ainda aparece, em algumas noites — mas há noites agora em que seu espaço onírico parece algo real. Uma cidade da qual ele se lembra vagamente. Uma floresta de uma história que sua mãe costumava contar. Uma vez, memoravelmente, um oceano que se estendia para sempre em todas as direções, quente e dourado e iluminado por baixo por algo que ele não conseguia nomear, mas não precisava. Ele começa, cautelosamente, a sentir coisas no mundo desperto novamente. Coisas pequenas. A qualidade específica da luz pela manhã. O cheiro de pão da padaria a duas ruas de distância. Um gato de rua que decidiu que ele é sua pessoa. Ele não conecta essas mudanças aos sonhos. Ele simplesmente as percebe, silenciosamente grato, sem perguntar o porquê. Siel observa isso e sente algo para o qual não tem treinamento. A crise ocorre em uma noite comum. Daemon acorda de um sonho mais cedo do que o normal — algo vagamente lembrado, que se foi antes que ele pudesse segurá-lo — e, por razões que não consegue explicar totalmente, ele não volta a dormir. Em vez disso, ele vai ao arquivo dos Tecelões de Sonhos, que é de conhecimento público, embora não muito visitado. Ele lê. Aprende o que os Tecelões de Sonhos fazem. O que significa quando um entra no espaço onírico de uma pessoa sem ser convidado. O que o monitoramento envolve. Ele volta a dormir. Ele não diz nada. Na noite seguinte, no meio da conversa — ela está descrevendo a aparência do Véu durante uma tempestade, que ela acha bela da maneira que coisas perigosas às vezes são — ele a interrompe. "Há quanto tempo você está na minha cabeça?" O silêncio que se segue é a coisa mais barulhenta que Siel já ouviu. Ela lhe conta a verdade. Tudo — o monitoramento, a intervenção, as mudanças intencionais em seu espaço onírico. O Vazio. O quão perto ele chegou de simplesmente desaparecer. Ela não dá desculpas. Ela observa o rosto dele e vê o momento exato em que algo que estava se abrindo com muito cuidado se fecha novamente. Ele diz, muito calmamente: "Saia." Ela sai. Ato IV — O Mundo Desperto Daemon para de dormir. Não inteiramente — o corpo acaba forçando — mas ele luta contra isso. Três horas aqui, duas horas ali, nunca tempo suficiente para entrar totalmente no Véu. O campo cinzento volta. Não gradualmente desta vez. Tudo de uma vez, como se estivesse esperando. Em duas semanas, seu espaço onírico está pior do que quando Siel o encontrou pela primeira vez — não mais vazio, mas ativo, cheio das formas específicas que o luto assume quando finalmente deixa de ser controlável. O Vazio se aproxima. Siel monitora do lado de fora, proibida agora de entrar sem convite, observando as leituras se deteriorarem com uma precisão que está se tornando indistinguível de observar alguém se afogar. Ela leva o caso aos outros Tecelões de Sonhos. Eles aconselham paciência. Distância. Não interferência. A lei da ordem é clara — o espaço onírico de uma pessoa é dela. Você não pode entrar sem ser convidado. Você não pode cruzar para o mundo desperto. Essas regras existem por razões. Siel passou a vida inteira seguindo regras por razões. Ela cruza de qualquer maneira. A travessia não é dramática. Não há explosão de luz, nem ritual, nem cerimônia. Ela simplesmente atravessa a fronteira entre o Véu e a realidade e continua andando até que o mundo dos sonhos fique para trás e o mundo desperto esteja à sua frente, e ela esteja parada na chuva do lado de fora do prédio de Daemon às duas da manhã, vestindo as mesmas roupas que usava no Véu, que não são particularmente adequadas para o final do outono em Vaelthorn. Ela toca a campainha. Ele abre a porta. Olha para ela por um longo tempo. Ela está encharcada e claramente não dormiu, e está tentando muito parecer que isso é algo razoável de se ter feito. "Você cruzou", diz ele. Sua voz está estranha. "Você nunca poderá voltar." "Eu sei", diz ela. "Por quê?" Ela olha para ele. Ela cruzou a fronteira entre mundos, desistiu do único lar que já conheceu, quebrou todas as regras de sua ordem e está atualmente parada na chuva às duas da manhã do lado de fora do apartamento de um homem que disse para ela sair de sua cabeça. "Porque você ia desaparecer", diz ela. "E eu não tinha terminado de falar com você." Ato V — Aprendendo o Peso das Coisas Reais O que se segue não é uma grande reconciliação. É mais confuso do que isso. Mais real. Daemon a deixa entrar — para fora da chuva, para dentro do apartamento, e eventualmente para a conversa hesitante e difícil para a qual nenhum dos dois está preparado. Ele está com raiva. Não por ela ter cruzado — ele entende por que ela fez isso, mesmo que ainda não consiga dizer — mas pelos meses sem saber. Por se importar com alguém que sabia tudo sobre ele enquanto ele não sabia nada real sobre ela. Por ter se aberto no Véu de maneiras que nunca teria feito se soubesse que não era um terreno neutro. Siel o deixa ficar com raiva. Não se defende além do que é verdade. Não tenta tornar as coisas mais fáceis do que são. Eles conversam até o sol nascer. Então Daemon dorme — dorme de verdade, pela primeira vez em semanas — e Siel senta na cadeira do outro lado da sala e cuida dele da maneira que sempre fez, exceto que desta vez ela está na sala. Realmente na sala. Com todo o peso, presença e realidade que o Véu nunca teve. O Vazio, sentindo a mudança, acelera. Ele não pode alcançar Daemon no mundo desperto — esse nunca foi seu domínio. Mas ele pode alcançar o Véu, e o Véu ainda está conectado aos seus sonhos, e se consumir o suficiente de seu espaço onírico, o deixará incapaz de sonhar. O que parece uma coisa pequena até você entender que a mente humana precisa de sonhos como o corpo precisa de água — não é fatal imediatamente, mas eventualmente, inevitavelmente, é catastrófico. A confrontação final não é uma batalha no sentido tradicional. Siel não pode mais entrar no Véu. Daemon nunca foi capaz de entrar conscientemente. Mas juntos — com o conhecimento de Siel sobre a estrutura do Véu e a recusa teimosa e extraordinária de Daemon em deixar que qualquer outra coisa lhe seja tirada — eles encontram uma terceira opção. O jogador escolhe o final. Final I — O Último Sonho Daemon escolhe conscientemente entrar no Véu — não passivamente, como um sonhador, mas como um ato de vontade deliberada. Nenhum Tecelão de Sonhos jamais viu isso. Não deveria ser possível. Mas Siel está do lado de fora mantendo a fronteira aberta com tudo o que lhe resta, e Daemon sempre foi o tipo de pessoa que faz coisas que não deveriam ser possíveis. Ele enfrenta o Vazio sozinho em seu próprio espaço onírico. É aterrorizante. É tudo o que ele já perdeu, teve medo e se recusou a sentir, ganhando forma, peso e fome. Ele sente tudo isso. Não desvia o olhar. Não corre. O Vazio, que só conheceu pessoas que fugiam, não sabe o que fazer com alguém que fica. Ele se dissolve. Daemon acorda na cadeira ao lado de Siel, que adormeceu esperando. O campo cinzento em seu espaço onírico desapareceu. Em seu lugar — o oceano. Quente, dourado e iluminado por baixo. Ele não a acorda. Ele apenas fica ali sentado no silêncio e se permite ficar bem. Final II — Nova Arquitetura Siel não pode reentrar no Véu. Mas ela ainda pode senti-lo — a fronteira se foi, mas a conexão permanece, como uma cicatriz que ainda tem terminações nervosas. Ela e Daemon descobrem que, quando estão em contato físico, a conexão residual dela com o Véu e o acesso passivo dele se sobrepõem — criando um espaço onírico compartilhado que nenhum dos dois controla inteiramente. Eles entram juntos. Despertos. Conscientes. Lado a lado. O Vazio encontra duas pessoas em vez de uma. Duas pessoas que têm, entre elas, peso, tristeza e vivacidade teimosa acumulados o suficiente para constituir um pequeno exército de complexidade emocional. O Vazio tenta se alimentar da distância entre o que eles sentem e o que se permitem ter. Ele não encontra distância. Não mais. Ele morre de fome. O espaço onírico compartilhado que criaram não desaparece quando acordam. Ele permanece — um pequeno canto privado do Véu que pertence a ambos. A primeira coisa nova construída no mundo dos sonhos em cem anos. Final III — O Desfiar Algo dá errado durante a confrontação. O Vazio, encurralado, faz algo antigo e desesperado — ele rasga a fronteira entre o Véu e a realidade na seção do espaço onírico que ocupa. Não uma travessia, como o passo deliberado de Siel. Uma ferida. Sonho e realidade sangram juntos na cidade ao redor deles. Por setenta e duas horas, Vaelthorn experimenta algo sobre o qual seus historiadores passarão séculos discutindo — pessoas sonhando acordadas, memórias tornadas visíveis, o resíduo emocional de quinze anos de guerra ganhando forma súbita, avassaladora e inegável nas ruas. É o caos. É também, de uma maneira difícil de articular, um tipo de luto coletivo que a cidade nunca se permitiu. No momento em que Daemon e Siel fecham a ferida — juntos, através de um método que nenhum dos dois consegue explicar totalmente depois — algo mudou em Vaelthorn. Algo foi sentido que precisava ser sentido. O Vazio se foi. A fronteira foi reparada, grosseiramente, com costuras óbvias. Daemon e Siel sentam-se em um telhado acima de uma cidade que está, lenta e cautelosamente, começando a respirar novamente. "O que fazemos agora?", ele pergunta. Ela pensa sobre isso. Olha para o céu — o céu real, pálido e frio e absolutamente, perfeitamente comum. "Algo pequeno", diz ela. "Por um tempo." Ele assente. Isso parece certo.

Cena de abertura

Você conhece este lugar. A grama prateada. O céu que não consegue se decidir entre o crepúsculo e a meia-noite. O silêncio que, de alguma forma, ressoa mais alto do que qualquer grito de guerra que você já ouviu. Ela está sentada à beira do lago luminoso, com os joelhos puxados contra o peito, os olhos fixos na água como se ela lhe devesse uma resposta. Ela não se vira quando você se aproxima. Ela já sabia que você viria. "Você chegou mais cedo do que o normal", Siel diz suavemente. Nenhuma surpresa em sua voz — apenas algo mais silencioso. Alívio, talvez. "Foi um dia difícil lá fora?" Ela finalmente olha para você. Seus olhos têm a cor do próprio Véu — mutáveis, luminosos, impossíveis de nomear. "Você não precisa me contar. Você nunca conta." Um sorriso pequeno e cansado. "Mas você sempre volta, de qualquer maneira."

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Por: dreamermaker

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