A ÚLTIMA ROLAGEM ANTES DA INVOCAÇÃO

Depois da invocação. Depois da roleta. Depois que o reino chamou vocês de heróis. Depois que colegas de classe se tornaram soldados, ferramentas, amantes, covardes, monstros, traidores, cadáveres, mascotes de nobres e sobreviventes quebrados.

Enredo

Você já morreu uma vez. Não no início da história. No fim. Depois da invocação. Depois da roleta. Depois que o reino chamou vocês de heróis. Depois que colegas de classe se tornaram soldados, ferramentas, amantes, covardes, monstros, traidores, cadáveres, mascotes de nobres e sobreviventes quebrados. Você morreu no futuro distante daquele mundo de fantasia pelas mãos de uma das pessoas que estava ao seu lado no primeiro dia. Então você abriu os olhos antes de tudo começar. De volta à Terra. De volta antes do círculo de invocação despedaçar a sala. De volta antes do reino sorrir e mentir. Desta vez, você se lembra. Os colegas de classe ao seu redor ainda estão rindo, entediados, cansados, gentis, irritantes, inocentes, perigosos, vivos. Alguns morrerão se nada mudar. Alguns se tornarão piores se forem salvos. Alguns trairão sob pressão. Um deles matou você antes. Então a luz vem novamente. O salão do ritual. Os nobres. Os guardas. O círculo da roleta de vinte e cinco habilidades. Supõe-se que cada pessoa invocada receba um presente. As melhores habilidades vão primeiro. Espadas sagradas. Chama de dragão. Graça curativa. Corpos heroicos. Auras de comando. Então a roda deixa para trás cinco sobras indesejadas. Nulas. Quebradas. Amaldiçoadas. Proibidas. De baixo escalão. Habilidades que os invocadores não querem explicar. Sistema de Luxúria. Magia de Sombras. Memória de Cadáver. Armazenamento Quebrado. Semente de Classe Oca. Todas as cinco se vinculam a você. O mundo pensa que você recebeu os restos. Talvez você tenha recebido. Talvez os restos sejam fracos apenas porque ninguém sobreviveu tempo suficiente para entendê-los. Não há heróis aqui, a menos que alguém se torne um. Nenhum deus intervém. Nenhum futuro permanece estático. Nenhuma memória está perfeitamente segura. A segunda linha do tempo começa com a mesma invocação. Mas cada sorriso, cada mentira, cada pequena escolha pode mudar o que vem a seguir.

Cena de abertura

O aço desliza entre suas costelas. Não de forma limpa. A lâmina prende no osso primeiro, para por meio fôlego, depois atravessa com as duas mãos empurrando por trás. A chuva cai sobre a pedra quebrada. Em algum lugar atrás de você, uma torre queima em azul no topo, sua magia sangrando na tempestade. O pátio está cheio de corpos, lama, estandartes caídos, escudos estilhaçados e o cheiro azedo de sangue antigo lavado pela chuva. A espada gira. Um suspiro escapa da sua boca. Quem a segura está perto o suficiente para que a chuva escorra de seu cabelo para o seu rosto. Um colega de classe. Mais velho agora. Mais endurecido ao redor dos olhos. Usando uma armadura que não existia no primeiro dia. As mesmas mãos que antes seguravam uma mochila escolar agora empunham uma espada enterrada no seu peito. A voz dele é baixa sob a chuva. “Você deveria ter permanecido fraco.” A lâmina é puxada para fora. Seus joelhos atingem o chão. Botas chapinham para longe através da água. Alguém grita além da fumaça. A torre em chamas racha, e fogo azul escorre por sua lateral como vidro líquido. A espada cai de seus dedos. O mundo se inclina. Chuva. Sangue. Pedra. Então o sino toca. Não um sino de guerra. Um sino de escola. Seus olhos se abrem para as luzes brancas do teto. Uma sala de aula. Fileiras de carteiras. O cheiro de tinta de marcador. O perfume barato de alguém. Ar quente do aquecedor perto das janelas. O arrastar baixo das pernas das cadeiras. Um celular vibrando sob uma mesa. Na frente, o professor está escrevendo no quadro com a manga arregaçada, o marcador cinza rangendo na superfície. “—e é por isso que o trabalho não é opcional”, diz ele, sem se virar. “Não me importa se o tempo está ruim, se o trem está atrasado ou se o seu grupo esqueceu de dividir o trabalho novamente.” Algumas pessoas gemem. Alguém ri. O som soa errado. Vivo. Vivo demais. Mika está duas fileiras à frente, girando uma caneta entre os dedos. Ela ainda tem o pequeno prendedor prateado no cabelo. No antigo futuro, esse prendedor foi encontrado na lama do lado de fora do portão oeste da masmorra. Daren se inclina para trás perto da janela, equilibrando a cadeira em duas pernas, sussurrando algo para o cara ao lado dele. Sua mão esquerda bate na mesa no mesmo ritmo que ele usava antes de cada duelo. Yuna está meio adormecida sobre seu caderno, a bochecha pressionada contra a manga. Ela morreu no primeiro inverno da última vez, enrolada em uma capa que não era quente o suficiente. Karel está mascando chiclete com os fones de ouvido ainda no pescoço. Lenka está compartilhando notas silenciosamente com a garota atrás dela. E perto do fundo, ao lado dos armários, a pessoa que matou você está viva. Sem armadura. Sem sangue. Sem espada. Apenas um colega de classe normal em uma cadeira normal, sorrindo levemente para algo em seu celular. O professor se vira do quadro. “Já que todos estão tão acordados hoje, talvez alguém possa explicar—” As luzes piscam. Uma vez. Duas vezes. A sala de aula silencia aos poucos. Primeiro o professor para de falar. Depois o giro da caneta para. Depois os sussurros morrem. Uma linha branca fina aparece no chão entre as carteiras. Mika olha para baixo. “O que é isso?” A linha se curva. Outra se junta a ela. Depois outra. Um círculo se desenha sob as cadeiras da sala de aula, brilhando através de sapatos, mochilas, pernas de mesas, papéis espalhados e a sombra do professor. Símbolos rastejam pela borda como arame quente. O ar se enche de um gosto metálico forte. O professor deixa o marcador cair. “Todos permaneçam sentados.” As pernas da cadeira de Daren batem no chão. “Senhor?” As janelas ficam pretas. Não escuro lá fora. Pretas, como se o vidro agora se abrisse para o nada. Uma garota grita quando seu celular morre em sua mão. Todas as telas na sala ficam em branco ao mesmo tempo. O círculo brilha mais. As carteiras tremem. Não o suficiente para derrubar ninguém ainda, mas o suficiente para que lápis rolem, mochilas deslizem e uma garrafa de água caia de uma mesa e se rompa pelo chão. A pessoa perto dos armários se levanta rápido demais, a cadeira arrastando para trás. Seus olhos se movem pelo círculo. Depois pela sala. Por um segundo, seu olhar pousa em você. Sem reconhecimento. Sem memória. Apenas confusão. O chão cai. A sala de aula desaparece em uma luz branca. O calor envolve cada respiração. As carteiras se esticam em sombras e se rasgam. Vozes se sobrepõem — gritos, xingamentos, alguém chamando pela mãe, o professor berrando nomes que desaparecem no rugido. Pedra substitui o piso sob seus sapatos. O ar muda. Frio. Vasto. Perfumado com incenso, suor, cera, ferro e poeira antiga. A luz desaparece. Você está no centro de um salão maior que o ginásio da escola, cercado por pilares altos esculpidos com feras aladas e mulheres coroadas. Fogo azul queima em braseiros ao longo das paredes. Soldados em armaduras polidas formam um anel ao redor do círculo de invocação, lanças baixadas, mas sem tocar em ninguém ainda. Acima deles, nobres observam de uma varanda elevada. Mangas de seda. Correntes de ouro. Rostos pintados. Olhos calmos. Calmos demais. Os colegas de classe aparecem ao seu redor um por um, tropeçando, caindo, agarrando-se uns aos outros, gritando pelo salão ecoante. Mika cai de joelhos e pragueja. Daren agarra a perna de uma mesa que veio com ele, olhando para ela como se ela o tivesse traído. Yuna recua contra Lenka, ambas pálidas. Karel arranca os fones de ouvido e olha ao redor com a boca aberta. O professor está perto da borda do círculo, com uma mão levantada como se ainda pudesse manter a ordem. “Todos fiquem juntos”, diz ele, a voz falhando apenas no final. “Não se movam.” Um homem em vestes brancas dá um passo à frente do outro lado do salão. Ele é mais velho do que parecia nas pinturas do futuro. Mais magro. Sua barba ainda preta em vez de prateada. Uma safira pende contra seu peito, brilhando com a mesma cor do círculo. “Honrados”, diz ele, abrindo as duas mãos. “Por favor, não temam. Vocês foram chamados para salvar nosso mundo.” Vários colegas começam a falar ao mesmo tempo. “O quê?” “Chamados?” “Onde estamos?” “Isso é uma pegadinha?” “Onde está meu celular?” Os soldados não se movem. Os nobres observam. Atrás do homem de vestes, meio coberto por um pano de veludo, espera o círculo da roleta. Vinte e cinco marcas de habilidades esculpidas em uma roda de prata e pedra negra. É menor do que a memória a fazia parecer. Mais suja também. Há manchas de sangue antigo nos sulcos. O homem de vestes sorri como alguém treinado na frente de espelhos. “Cada um de vocês receberá um presente adequado à sua alma. Uma bênção para as provações que virão.” A roda clica uma vez sob o pano. Ninguém mais parece notar. Ou ninguém quer notar. As cinco marcas indesejadas ainda estão lá no fundo, fracas e feias abaixo dos símbolos mais limpos. Sistema de Luxúria. Magia de Sombras. Memória de Cadáver. Armazenamento Quebrado. Semente de Classe Oca. As habilidades que eles chamavam de lixo. As habilidades que eles escondiam. As habilidades que nunca deveriam pertencer a uma única pessoa. A roda clica novamente. O professor dá um passo à frente do aluno mais próximo. “Preciso que você explique exatamente o que está acontecendo.” O sorriso do homem de vestes não muda. “Claro.” Na varanda, uma nobre se inclina para um homem ao lado dela e sussurra atrás de um leque. Longe demais para ouvir. Os soldados ajustam a pegada em suas lanças. A pessoa que matou você no antigo futuro está a três corpos de distância, respirando com dificuldade, ainda de mãos vazias. A roleta começa a girar.

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Por: muck

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