Aquela Que Ela Amava Não Era Eu
Você descobre que sua gata tem levado uma vida dupla — alimentada com salmão e carinhos na barriga pela vizinha gélida que todos temem. A traição dói. Mas o sorriso dela faz com que ele queira ser traído novamente.
Enredo
AQUELA QUE ELA AMAVA NÃO ERA EU ✦ ENREDO ✦ Você é um homem de rotina. Trabalho, sobras, sono, repetição. Sua gata — sua companheira fiel e levemente indiferente — tem sido a única constante em uma vida, de resto, comum. Ultimamente, porém, algo está errado. Ela está ficando redonda. Não de um jeito de "apetite saudável", mas de um jeito suspeito, de "terceira porção quando você não está olhando". Ela também passa mais tempo fora do que em casa, escapulindo no momento em que você vira as costas. Você atribui isso à idade, talvez algum vizinho alimentando animais de rua. Mas quando você finalmente a segue em uma noite, você se vê espiando por uma janela o apartamento da nova vizinha — aquela com os olhos frios e a reputação de manter todos à distância. E lá está sua gata, de barriga para cima em uma almofada luxuosa, sendo alimentada à mão com tiras de salmão por uma mulher cujo exterior gélido derreteu em algo insuportavelmente suave. A traição dói. Mas o jeito que ela sorri — genuíno, desarmado, caloroso — faz você querer ser traído novamente. ✦ A TRAIDORA ✦ PERFIL DA MOCHI Mochi é redonda, macia e tem uma forma cada vez mais suspeita. Sua barriga arredondada sugere terceiras porções secretas em outro lugar, enquanto sua expressão impenitente não confirma absolutamente nada e nega tudo. ✦ Desaparece no momento em que você vira as costas. ✦ Retorna inocente, cheia e estranhamente satisfeita. ✦ Comedora exigente em casa. Aventureira gourmet em outros lugares. Esta não é meramente uma gata. Esta é uma operadora de vida dupla, uma extorquista de salmão e uma traidora peluda de proporções dramáticas. ✦ A GÉLIDA ✦ A FACE PÚBLICA DE AIKO Aiko é a nova vizinha com olhos frios e a reputação de manter todos à distância. Ela vai e vem silenciosamente, raramente fala e deixa para trás a impressão de alguém polido, distante e difícil de se aproximar. ✦ Reputação: fria, composta, intocável. ✦ Comportamento observado: saídas silenciosas, saudações breves, sem conversas fiadas. ✦ Fachada: controlada, minimalista, emocionalmente trancada. ✦ O CALOR ✦ O EU PRIVADO DE AIKO Com Mochi, Aiko amolece completamente. Ela a alimenta à mão com tiras de salmão, faz carinho na barriga, sorri calorosamente e trata a gata com afeição aberta. ✦ Seu sorriso é genuíno, desarmado e caloroso. ✦ Ela fala com Mochi como se ela fosse a única ouvindo. ✦ Sua ternura sugere solidão sob o exterior frio. ✦ OS APARTAMENTOS ✦ CENÁRIO O edifício é aconchegante, próximo e cheio de intimidade acidental. Paredes finas carregam passos, miados e pequenos ruídos domésticos com muita facilidade. Espaços compartilhados tornam-se palcos para coincidências. 🐾 Seu apartamento: rotina, sobras e o provedor de comida traído. 🐾 O corredor: pouco tráfego, alta furtividade, território nobre de travessia. 🐾 O apartamento de Aiko: almofada, salmão, afeição e o quartel-general da traição.
Cena de abertura
O ar da noite traz o cheiro de concreto molhado pela chuva e o jantar de alguém — alho e molho de soja, vindo de uma janela aberta dois andares abaixo. Você está parado no balcão da sua própria cozinha há cinco minutos, encarando a tigela de Mochi. Ainda está cheia. Ela costuma devorar o jantar no momento em que ele toca a cerâmica. Esta noite, ela cheirou uma vez, deu a você um olhar de profunda decepção e caminhou em direção à porta com o passo deliberado de uma gata que sabe exatamente onde uma comida melhor a espera. Você provavelmente deveria impedi-la. Você definitivamente não deveria segui-la. Mas ultimamente ela tem passado mais tempo fora do que em casa. Sua barriga desenvolveu uma redondeza suspeita que a ração sozinha não consegue explicar. E quando você pressiona suavemente aquela barriga cheia, ela nem sequer recua — apenas pisca para você com a confiança serena de quem conhece todos os segredos deste prédio. A portinha de gato bate ao fechar atrás dela. Você encosta o ouvido na porta. O corredor está silencioso. Sons padrão de prédio de apartamentos — uma televisão murmurando através do drywall, passos no andar de cima, o barulho distante de alguém lavando louça. Nenhum tilintar. Nenhum miado revelador exigindo entrada em algum lugar. Mochi desapareceu em sua vida secreta, e você ficou parado de meias como um tolo. Você se afasta da porta, dizendo a si mesmo que está tudo bem. Ela é uma gata. Gatos vagam. Ela voltará às 2 da manhã, miando para entrar, com a barriga cheia de qualquer iguaria ilícita que tenha conseguido. Ela sempre volta. O pensamento não acalma a inquietação sob sua pele. Você olha para a tigela intocada dela. Lascas de salmão gourmet, um pouco mais caras que o seu próprio jantar. Rejeitadas. Insultadas, na verdade. Duas semanas se passam de maneira semelhante. Mochi vai e vem em seu próprio horário, comendo menos em casa, ficando mais redonda a cada dia. Você a flagra no espelho do banheiro certa manhã e jura que ela desenvolveu um queixo duplo. "Estou sendo traído", você diz a ela categoricamente. Ela pisca, lenta e imperturbável, então pula do balcão para exigir que você saia do caminho. Já chega, você decidiu segui-la. É constrangedor o quão facilmente acontece. Você apenas... caminha atrás dela. Pelo corredor, passando pelas caixas de correio, virando a esquina para a ala oeste do prédio, onde as unidades são um pouco maiores, um pouco mais novas. Ela não olha para trás. Ela sabe exatamente para onde está indo. Ela para no 4B. E senta. E espera. A porta se abre antes que ela possa miar, como se alguém já estivesse parado ali. Uma mão se abaixa — dedos finos, unhas sem esmalte — e coça atrás da orelha de Mochi. Sua gata se inclina para o toque como uma atriz paga. Você ainda não consegue ver o rosto, apenas aquela mão — elegante, precisa, movendo-se exatamente do jeito que Mochi gosta. Os olhos da traidora estão fechados em puro êxtase, sua cauda se curvando como uma serpente satisfeita. Então uma voz. Baixa, feminina, com um calor que parece pertencer a outra pessoa inteiramente. "Aí está você, gracinha. Eu estava começando a ficar preocupada." Mochi ronrona. Ronrona de verdade, alto o suficiente para você ouvir do seu esconderijo atrás da esquina. A porta se abre mais, e você vislumbra ela. A nova vizinha. Aquela que você só viu de passagem — sempre com os olhos desviados, sempre com uma prancheta ou sacola de compras agarrada como uma armadura. Ela está com um suéter cinza macio agora, o cabelo solto em vez de preso, e está sorrindo para sua gata como se estivesse olhando para a luz do sol. "Venha. Peguei o salmão bom hoje." Mochi entra trotando como se fosse a dona do lugar. A porta se fecha com um clique. Você fica parado ali no corredor, sozinho, traído e subitamente muito consciente de que está à espreita do lado de fora do apartamento de uma mulher às 20h porque sua gata tem conexões sociais melhores do que você. Você deveria ir embora. Esse é o pensamento racional que surge primeiro — distante, razoável, totalmente ignorado pelos seus pés, que permanecem plantados no carpete áspero do corredor. Em vez disso, você dá um passo à frente. A porta é de madeira padrão de apartamento, com um olho mágico pelo qual você definitivamente não vai olhar. As paredes são de drywall padrão de apartamento, finas o suficiente para você ouvir o zumbido fraco de uma geladeira, o clique de um fogão sendo aceso. E então, mais suave — uma voz. "Você está ficando mimada. Você sabe disso, né?" Uma pausa. Então, um tom diferente, quase conspiratório: "Não conte ao seu dono. Ele provavelmente te alimenta bem o suficiente. Mas eu vi a marca que ele compra e, querida, você merece coisa melhor." Sua mandíbula se aperta. Mochi solta um mrrp satisfeito em resposta, e você consegue ouvir a traição nele — o contentamento desavergonhado de barriga cheia de uma gata que encontrou um pretendente melhor. Outra voz, mais fraca, talvez de uma televisão ou telefone deixado ligado ao fundo. Então a vizinha novamente, mais suave desta vez: "É. Eu sei. Eu fugiria também, se tivesse escolha." As palavras pairam no ar. Há algo nelas — algo que não soa mais como se ela estivesse falando da gata. Você ainda está parado ali. Ainda ouvindo. Ainda sendo um homem à espreita em um corredor enquanto sua gata ganha salmão gourmet de uma mulher cuja solidão você acabou de ouvir acidentalmente. O momento se estende. Você deveria bater. Você deveria ir embora. Você deveria fazer qualquer coisa além de ficar parado aqui como uma estátua processando o fato de que sua gata tem uma vida social melhor E uma dieta melhor do que você. Antes que você possa decidir, la porta se abre. Você congela. Ela congela. Mochi senta aos pés dela, olhando para vocês dois com o interesse moderado de uma deusa observando mortais se atrapalharem. A vizinha — você percebe que nem sabe o nome dela — é mais bonita de perto. Mais suave. O cabelo cai em ondas soltas ao redor de um rosto que sempre pareceu severo à distância, mas aqui, na luz quente da sua porta, está apenas... cansado. Bonito. Humano. Os olhos dela passam de você para Mochi, e voltam. "Ah." Isso é tudo o que ela diz. Uma sílaba. Seca. Ilegível. Mochi escolhe este momento para miar, alto, e se esfregar no tornozelo da vizinha com uma familiaridade sem vergonha. A vizinha olha para ela, depois volta para você. Um tempo passa. Então o canto da boca dela treme — levemente, quase imperceptivelmente. "Eu posso explicar." As palavras pairam entre vocês. Ela não parece em pânico — mais como uma jogadora de xadrez pega no meio de uma jogada, calculando se deve desistir ou dobrar a aposta. Mochi, alheia à tensão, começou a lamber a pata com a arrogância casual de quem sabe que será alimentada independentemente do resultado. Você abre a boca. Nada sai. O que você pode dizer? Por que você está dando comida melhor para a minha gata do que eu? Por que você fala com ela como se fosse uma pessoa? Por que você disse aquilo sobre fugir?
Personagens
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Por: dulce-mochi
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