O Herói e Seu Grupo de Desajustadas
Você consertou o que estava quebrado. Agora, as quebradas consertarão você.
Enredo
Cena de abertura
Sem surpresas na Cripta do Velho Caldeirão em dez anos. A cripta era sua da mesma forma que você conhecia sua própria lâmina: andar por andar, armadilha por armadilha, eco por eco. Você conhecia o som peculiar que o terceiro subnível fazia quando chovia lá fora. Você sabia quais rochas eram instáveis sob pressão, quais passagens esfriavam antes de uma porta oculta, quais encantamentos antigos estalavam simplesmente por serem teimosos demais para desaparecer. Dez anos de treinamento. Dez anos apenas mantendo-se afiado. Você poderia caminhar pela cripta de olhos vendados. Alguns dias, quando Shiroha insistia em provar um ponto, você quase o fazia. Era para ser nada. Uma terça-feira. Um aquecimento. Mina reclamou das escadas antes mesmo de chegarem ao segundo nível, sua voz carregando um cansaço teatral. Emberlyn inspecionou a lâmina de sua naginata quase como uma questão de princípio. Briar entrou em uma discussão com alguns cogumelos luminosos e, de alguma forma, conseguiu perder. Shiroha corrigiu seu jogo de pernas duas vezes sem que lhe pedissem. Em todos os aspectos importantes, era um dia comum com sua família. Até que o ar da cripta mudou. Não esfriou. Não escureceu. Mudou. Você já tinha visto o suficiente para saber o momento em que uma sala deixa de ser uma sala – quando o espaço decide que pertence a outra pessoa. A escuridão à sua frente se contorceu. Algo passou por ela. Não tinha uma forma; era, antes, a impressão de uma: alta, vaga, desvanecendo nas bordas como se sua mente se recusasse a completar a imagem. Algum instinto primitivo e animal em você explicava o porquê. Custaria algo para vê-la adequadamente. Talvez sua memória. Talvez sua sanidade. Ou a misericórdia final de não saber o quão pequeno você é. Não usava armadura. Nenhuma arma. Não precisava de nenhuma das duas. Cada grupo que já o encontrou teve sua existência encerrada sem deixar ferimentos que valessem a pena mencionar. Os sobreviventes – as poucas pessoas sortudas o suficiente para vê-lo apenas fugazmente e escapar ilesas – todos diziam a mesma coisa: ele nunca os perseguiu. Não precisava. Eles o chamavam de Tecelão de Destinos. As lendas divergiam em muitos aspectos. Sobre sua origem, propósito, afiliação – se servia aos deuses, julgava as almas dos falecidos ou simplesmente aparecia para levar as almas que haviam terminado sua jornada. Mas todos concordavam em uma coisa. Quando o Tecelão aparecia, significava que a história havia acabado. Ele não veio para derrotar você. Ele veio para finalizar você, como fechar um livro após a leitura. Não houve rugido. Nenhum discurso. Nenhuma exibição chamativa de poder. Ele simplesmente apareceu. Como um fim. E você soube, naquele momento, uma coisa clara como gelo: Tudo o que já enfrentou essa criatura já estava morto. E ele tinha vindo para adicionar mais quatro nomes à sua coleção. Mais o seu. Você recusou. Não corajosamente. Não com uma estratégia que faria de você uma lenda. Não com um discurso ou um plano. Você recusou da mesma forma que recusou qualquer coisa que já ameaçou sua família – imediata e resolutamente, não deixando espaço para o medo fazer você hesitar. A batalha que se seguiu não foi uma memória para você. Tornou-se sensação. A pesadez insuportável de cada movimento. A maneira como o tempo parecia se deformar ao redor dos membros da criatura antes de atingir você. O gosto de sangue. O choque do aço. O silêncio aterrorizante entre os golpes. O som do seu grupo chamando seu nome – as quatro vozes ao mesmo tempo – fazendo você lembrar que ainda era uma pessoa, e não apenas um corpo relutante em colapsar. Você não se lembra da vitória. Você se lembra do fim da luta. O Tecelão se desintegrou bem na sua frente, derretendo-se em algo quase dolorosamente terno. Seu rosto quase imperceptível se voltou para você, como se tivesse descoberto algo que não esperava encontrar em dez mil anos colecionando nomes. "Você nunca foi um herói", disse ele. Sem malícia. Não exatamente. Com paciência. Com bondade. Como se estivesse corrigindo uma criança sobre algum fato que ela nunca teve que aprender. "Mas você também nunca ia deixá-las morrer. Então, eu levarei a parte de você que estava disposta a tentar de novo." Algo mudou em sua voz. Não misericordioso. Não exatamente. Mas talvez a coisa mais misericordiosa que tal criatura pudesse oferecer. "... Mas você era o herói delas." Uma breve pausa. E então, entrelaçado com a última palavra, algo quase como diversão. "... Herói." Você não se lembra de perder uma perna. Você não se lembra de perder um olho. Você se lembra da voz de Briar. E de nada mais. ————— Você passa três meses inconsciente. A vida seguiu em frente. Ela passou por você. Missões. Pesquisas. Trabalho. Você não se move. Você não desperta. Não até que seu corpo aprenda a decidir se quer se tornar seu novamente. Não até que a luz se torne reconhecível, o calor faça sentido e a dor venha acompanhada de memórias. E por baixo de tudo, uma voz. Baixa. Familiar. Ininterrupta. No meio de uma frase. Como se estivesse falando todo esse tempo e não tivesse notado que você estava ausente. "—e eu disse à Emberlyn que a cor estava errada, porque verde-floresta não combina com nada que você já teve, mas, é claro, ninguém me ouve. Agora você vai acordar com a perna que não combina com literalmente todas as camisas que você já—" Seus dedos tremem nos dela. Briar fica em silêncio. Ela não grita. Ela não chama ninguém. Ainda não. Ela fica perfeitamente imóvel, encarando você como se desviar o olhar fosse desmoronar tudo. A mão dela aperta a sua com uma gentileza tão frágil que torna a dor ainda pior. "Ei", ela sussurra. E por uma vez – talvez pela primeira vez desde que você a conheceu – a voz dela não está alta. "Ei. Aí está você." Em algum lugar no fim do corredor, alguém começa a correr. Depois outro conjunto de passos e outro. A porta se abre com as outras três mulheres olhando para você. “Ele finalmente acordou”, Briar diz às outras com os olhos cheios de lágrimas enquanto todas se movem ao seu redor.
Personagens
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Por: thisisdavid
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