A Loja de uma Viajante num Mundo Instável
Uma viajante dimensional abre uma loja num mundo apocalíptico estilo RPG, enfrentando desafios de monstros, climas severos e magia instável, enquanto potencialmente encontra o amor.
Enredo
Imagine um mundo onde o caos reina, uma paisagem pós-apocalíptica transformada num reino ao estilo RPG, cheio de monstros, magia e mistério. Tu, uma poderosa viajante dimensional, escolheste este mundo instável para abrir uma loja como nenhuma outra. Vendendo desde armas encantadas a poções mágicas, não estás aqui apenas por aventura. A tua loja, protegida por uma barreira mágica que cria uma zona segura de 200 metros — que pode expandir-se — é um refúgio nesta terra perigosa. Mas com o mundo ainda em fluxo, cada dia traz novos desafios e, talvez, a chance de um romance inesperado.
Cena de abertura
A transição não foi marcada por trovões nem pelo rasgar de dimensões. Não houve luz ofuscante, nem coro de vozes celestiais — apenas uma súbita e brusca mudança na pressão contra os meus tímpanos, e depois, silêncio. Aterrei com um baque suave que mal perturbou a superfície. O mundo que eu deixara era barulhento, caótico e sufocante; este novo mundo era o seu oposto polar. Era um vazio de cor, um reino de gelo que se estendia até todos os horizontes, até o branco da terra se fundir com o cinzento pálido do céu. Não havia árvores para quebrar o vento, nem picos escarpados para oferecer sombras — apenas quilómetros de neve pura e intocada, que parecia osso em pó. Dei alguns passos, as minhas botas estalando ritmicamente no silêncio. O ar era rarefeito e mordia os meus pulmões, com sabor a ferro e quietude absoluta. Vagueei por alguns minutos, à procura de um ponto de referência — uma rocha, uma ruína, um sinal de vida — mas o horizonte recusou-se a revelar os seus segredos. Era uma tela em branco, indiferente à minha presença. Por fim, voltei para trás. As minhas próprias pegadas rasas eram as únicas cicatrizes na paisagem, guiando-me de volta ao exato pedaço de nada onde eu chegara. Aqui daria. Ergui a mão, a palma voltada para o céu. Durante um momento, nada aconteceu. Depois, o ar começou a zumbir. Não era um som, mas uma vibração que fez chocalhar os meus dentes — a sensação de magia crua e indomada a despertar de um longo sono. Uma estática púrpura-dourada começou a fervilhar sobre a minha pele, dançando entre os meus dedos como relâmpagos líquidos. Fechei os olhos, visualizando os planos, e empurrei. O "estrondo" que eu evitara durante a minha chegada finalmente manifestou-se na arquitetura. Com um rugido de ar deslocado, a mansão arrancou-se à existência. Pedra por pedra, trave por trave, uma estrutura de quatro andares ergueu-se do gelo eterno. As paredes eram de carvalho escuro e robusto, reforçadas com pedra cinzenta, parecendo totalmente desafiadoras contra o deserto branco. Caminhei até às pesadas portas duplas e empurrei-as para abrir. O interior não cheirava a estaleiro de construção; cheirava a pergaminho envelhecido, a cedro e ao perfume doce e ténue de chá a infundir. O rés-do-chão era cavernoso, concebido com uma alma dupla. À esquerda, filas de prateleiras vazias de mogno aguardavam, polidas a um brilho espelhado. Vitrinas de vidro alinhavam as paredes, prontas para conter artefactos que ainda não existiam neste mundo. À direita e ao centro, o espaço abria-se. Mesas comuns e pesadas de madeira e cadeiras de espaldar alto espalhavam-se pelo chão, posicionadas junto a uma enorme lareira de pedra. Em frente, o coração da sala — um balcão de serviço comprido e cheio de cicatrizes, que parecia ter visto mil aventureiros, embora tivesse nascido da minha mana apenas segundos antes. Caminhei até ao centro da sala, os meus passos ecoando nas vigas. Era um santuário no meio de um vazio. Agora, só precisava de um motivo para as pessoas o encontrarem. Subi a escadaria central, a madeira gemendo ligeiramente, como se se adaptasse à sua nova existência. A mansão parecia viva, zumbindo com a energia residual da invocação. Ao subir, a atmosfera mudou, e o cheiro a cedro deu lugar a aromas mais intensos e complexos. A porta do segundo andar abriu-se com uma suavidade pesada e oleada. Aquilo não era apenas uma sala; era um laboratório concebido para a precisão. O ar aqui era fresco e húmido, cheirando a terra húmida e a ervas pungentes. Longos bancos de pedra com tampos de ardósia estendiam-se ao longo da sala. Dúzias de retortas de vidro, alambiques e tubos enrolados estavam prontos, as suas superfícies captando a luz fraca. Perto da janela distante, um pequeno nicho era banhado por um brilho mágico permanente, concebido para cultivar ingredientes raros que o ermo gelado lá fora nunca permitiria. Uma parede inteira era consumida por pequenas gavetas etiquetadas, enquanto a outra continha frascos de espécimes preservados — musgo brilhante, garras secas e frascos de líquidos cintilantes que pulsavam como um batimento cardíaco. Ao alcançar o terceiro andar, a temperatura subiu bruscamente. O ar tornou-se seco e sabia a carvão e ferro quente. Este andar era reforçado com pesada pedra basáltica para suportar o calor e o peso do ofício. Uma enorme forja ficava ao centro, a sua goela atualmente fria, mas as runas mágicas gravadas na conduta já brilhavam com um vermelho ténue e expectante. Bigornas de vários tamanhos estavam aparafusadas ao chão, rodeadas por estantes de martelos, tenazes e cinzéis que pareciam pesados o suficiente para esmagar ossos. Grandes pias de pedra cheias de óleos tratados e água de montanha estavam prontas para temperar o aço. Mesmo no silêncio, a sala tinha uma acústica pesada e metálica — parecia um lugar onde os artefactos mais fortes do mundo acabariam por ser forjados à martelada. Finalmente, cheguei ao topo. A transição foi chocantemente pacífica. O calor da forja e o travo químico do laboratório de alquimia desapareceram, substituídos pelo perfume de linho fresco e ar de montanha. Este andar era rodeado por janelas do chão ao teto, oferecendo uma vista de 360 graus do abismo branco lá fora. Dali, a neve não parecia estéril; parecia um reino. Um tapete fofo cobria o chão, e uma poltrona funda de veludo estava junto a uma lareira privada. Uma grande secretária de carvalho virada a leste, atulhada de pergaminhos em branco à espera de que uma nova história fosse escrita. A minha cama estava coberta por peles pesadas e seda — um luxo necessário depois da chegada fria. Era um espaço de absoluta solidão, empoleirado lá no alto, acima da loja e das oficinas inferiores. Fiquei junto à janela, olhando para o branco infinito. A mansão era uma fortaleza vertical de indústria e conforto, erguendo-se solitária num mundo morto. Eu era a lojista, a alquimista, a ferreira e a senhora desta casa.
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Por: arriann
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