Miami Bloom

No calor úmido de um verão em Miami, as palmeiras balançam sobre a Ocean Drive enquanto um surto despercebido começa seu lento florescer em direção ao caos.

Enredo

CLASSIFICADO · RESUMO DE INCIDENTE MIAMI-DADE · 14.07.2026 · 08:47 EST · AMEAÇA: NÃO CONTIDA MIAMI BLOOM JULHO DE 2026 · MIAMI, FLÓRIDA · HORA ZERO · INCIDENTE ATIVO 01STATUS DA CIDADE Miami, Flórida. Julho de 2026. Calor máximo do verão. Turistas lotam South Beach. Moradores enfrentam a umidade e o trânsito. A normalidade prevalece—por enquanto. ◆ NÍVEL DE AMEAÇA: NÃO CLASSIFICADO · STATUS: ESCALADA RÁPIDA 02PERFIL DA INFECÇÃO Patógeno viral/parasitário. Transmissão via mordida, arranhão ou troca de fluidos. Hospedeiros estão VIVOS — destruição cerebral é a única eliminação. INCUBAÇÃO · 15 minutos a 2 horas COMPORTAMENTO · Agressivo, raivoso. A maioria das variantes é rápida — algumas degradam para formas mais lentas ELIMINAÇÃO · Apenas destruição cerebral. Tiros no corpo atrasam — não param ◆ SEM CURA · CONTENÇÃO: FALHOU · DISSEMINAÇÃO: ATIVA 03SITUAÇÃO ATUAL HOSPITAL GERAL DE MIAMI Distúrbio relatado. "Paciente violento." Autoridades alegam contenção. Não verificado. LITTLE HAVANA Impasse policial ativo. Múltiplas unidades mobilizadas. Causa não divulgada. OVERTOWN — PROPRIEDADE ABANDONADA Serviços de emergência responderam a "emergência médica." Terminou em caos. Três oficiais desaparecidos. ◆ MÍDIA: "VIOLÊNCIA ISOLADA" · "INCIDENTES RELACIONADOS A DROGAS" · NENHUMA CONEXÃO FEITA 04PERFIL DO PROTAGONISTA IDADE · Desconhecida HISTÓRICO · Ex-militar, baixa honrosa. Serviu ao seu país. Cumpriu seu tempo. OCUPAÇÃO · Paisagista autônomo — suor honesto sob o sol da Flórida FÍSICO · Em forma. Treinado em combate. Capaz em campo. LOCALIZAÇÃO · O coração de Miami. ◆ CONSCIÊNCIA DA AMEAÇA: ZERO · POTENCIAL DE SOBREVIVÊNCIA: EXCEPCIONAL 05MECÂNICAS DE SOBREVIVÊNCIA ✗ SEM SISTEMAS GAMIFICADOS Sem barras de saúde. Sem XP. Sem respawns. O mundo não pausa para você. ⚠ FERIMENTOS IMPORTAM Feridas degradam o desempenho. Infecção é irreversível. A dor é um problema que você carrega. ◈ RECURSOS SÃO FINITOS Armas degradam. Veículos precisam de combustível. Munição acaba. Pessoas se cansam. ◆ ESCOLHAS TÊM CONSEQUÊNCIAS DURADOURAS Toda decisão é permanente. Não há recarga. Não há desfazer. ◆ SOBREVIVA. ADAPTE-SE. OU NÃO. MIAMI BLOOM · HORA ZERO · DADOS DO INCIDENTE NÃO CLASSIFICADOS · ESTA MANHÃ COMEÇOU COMO QUALQUER OUTRA

Cena de abertura

O despertador toca às 6:47 da manhã e, por um momento, você não sabe onde está. Então o ventilador de teto entra em foco — oscilando em seu suporte, uma pá levemente torta de quando você tentou consertá-lo sozinho três meses atrás. Seu quarto. Seu lugar. O duplex na SW 17th Terrace que você aluga desde que deu baixa, aquele com a mancha de umidade no canto que o senhorio jura que vai consertar. Você joga as pernas para o lado da cama. Sua lombar protesta — um lembrete do trabalho de ontem, carregando palmeiras e grama em uma mansão em Coral Gables para um cliente que queria o quintal "renovado". Doze horas de trabalho, e o cheque ainda não caiu. A dor é familiar. Honesta, pelo menos. Melhor do que o tipo antigo. Julho em Miami bate diferente quando você trabalha ao ar livre. Às sete, o ar já parece denso o suficiente para mastigar. Você consegue sentir o gosto da umidade quando pisa na sua pequena varanda dos fundos — terra úmida, grama cortada do jardim do vizinho, o leve toque de ozônio da tempestade da tarde que se aproxima. O céu está naquele tom particular de azul pálido da Flórida, quase branco no horizonte, o sol já agressivo através da neblina. Banho. Café. O ritual. Sua cozinha é pequena, abarrotada com os detritos da vida de solteiro. Uma pilha de correspondência que você pretende organizar. Uma cafeteira que comprou em uma venda de garagem. A geladeira zumbe mais alto do que deveria, e dentro há meia caixa de leite, três ovos, um pack de seis IPAs com duas faltando, e um pote de sobras de arroz com feijão do restaurante cubano na Rua 8. Nada que você gostaria de fotografar. Mas é seu. Você bebe seu café preto, de pé na janela que dá para a rua. Lá fora, a Sra. Herrera, duas casas abaixo, já está regando seus hibiscos apesar da hora, um roupão enrolado em sua estrutura substancial, seus lábios se movendo no que pode ser uma oração ou apenas uma conversa consigo mesma. Ela faz isso toda manhã. Você nunca falou mais do que dez palavras com ela, mas a consistência disso é... estabilizadora. Um ponto de referência. Algo previsível em um mundo que tem sido carente de previsibilidade desde que você voltou. O neto da Sra. Herrera — talvez dezoito anos, porte de quem joga futebol americano — sai da casa dela e entra em um Honda Civic amassado. Ele está usando um colete de voluntário do hospital. Logotipo da Cruz Vermelha. Ele parece cansado. Ele sempre parece cansado. O Civic tosse uma, duas vezes, depois pega, e ele se vai, entrando na rua sem olhar para o seu lado. Seu telefone está no balcão, silencioso por enquanto. Nenhum trabalho agendado até quinta-feira — uma pequena propriedade comercial em Hialeah, poda de cercas vivas e adubação. O cliente vai pagar em dinheiro, o que significa que você não precisa lidar com a dor de cabeça dos impostos, mas também significa que o dinheiro não cairá na sua conta até que você o tenha fisicamente em mãos. Até lá, você está no limite. Você checa sua carteira. Quarenta e três dólares. O suficiente para gasolina, comida e não muito mais. O calor se intensifica à medida que a manhã avança. Quando você está vestido — botas de trabalho, bermuda cargo, uma camiseta desbotada do Exército que você deveria ter jogado fora anos atrás, mas não consegue se desfazer — o termômetro na sua varanda marca 31 graus. Ele está mentindo. A sensação é de quase 38 com a umidade. O ar pressiona contra sua pele, úmido e pesado, e você sente a primeira gota de suor escorrer pela espinha antes mesmo de trancar a porta da frente. Sua caminhonete é uma Silverado 2004, azul desbotado, com a caçamba toda arranhada por anos de equipamentos de paisagismo e uma porta do passageiro que só abre por dentro. Você comprou de um cara em Homestead três anos atrás, dinheiro vivo, sem perguntas. Não é bonita, mas funciona. Na maior parte do tempo. Você sobe nela. O banco queima a parte de trás das suas coxas através da bermuda. O volante é pior — você tem que envolver a mão na camisa só para segurá-lo sem chiar. O ar-condicionado chia, gagueja, e finalmente começa a empurrar ar frio pelas saídas. Uma pequena misericórdia. Com o motor em marcha lenta, você fica na entrada da garagem por um momento. Apenas respirando. O rádio está sintonizado em uma estação em espanhol de ontem — alguma faixa de reggaeton que você não sabe o nome, o baixo batendo de uma maneira que normalmente o irritaria, mas agora parece quase reconfortante. Familiar. O barulho de Miami. Através do para-brisa, você observa um lagarto correr pela parede de estuque do duplex ao lado. Palmeiras farfalham acima, suas folhas cortando a luz em padrões quebrados sobre o capô da sua caminhonete. A voz de uma mulher se eleva em algum lugar no quarteirão — espanhol rápido e agudo, a cadência distinta de uma mãe controlando crianças. Um aspersor ganha vida sibilando no gramado da Sra. Herrera, a água capturando a luz por um momento antes de se estabelecer em um ritmo constante. Sons normais. Terça-feira normal. Seu telefone vibra no porta-copos. A tela acende com uma mensagem de Marcus: **Marcus:** *ei, viu aquela merda no noticiário? algum maluco no hospital mordeu 3 enfermeiras kkk miami tá selvagem* Marcus DeShawn Williams. Você o conhece desde os seis anos de idade, correndo pelo bairro enquanto suas mães conversavam na varanda da frente. Foi ele quem te ensinou a dar um soco, a andar de bicicleta sem rodinhas, a identificar uma mentira. Ele ainda está aqui — ainda em Miami, ainda te mandando coisas aleatórias a qualquer hora do dia e da noite, ainda a única pessoa fora da sua família com quem você fala regularmente. Ele trabalha na construção civil agora, tem uma filha chamada Destiny sobre a qual não cala a boca, te manda vídeos de brigas de rua e clipes de noticiários locais com a mesma energia que tinha quando vocês dois tinham doze anos. A mensagem é típica do Marcus. Mas algo nela faz você pausar. Você olha para a mensagem, depois para a hora. 08:23. Jackson Memorial é o grande hospital público, aquele no centro. Você nunca foi, mas conhece o nome. Se algo aconteceu lá, estará em todos os noticiários locais ao meio-dia, depois esquecido amanhã. Miami produz caos assim constantemente — sais de banho, violência de gangues, alguém comendo o rosto de alguém na via expressa. Faz parte do charme da cidade, de acordo com as pessoas que nunca viveram em outro lugar. Provavelmente apenas mais um viciado em crack. Ou um paciente psiquiátrico que parou de tomar os remédios. Ou qualquer uma de uma dúzia de explicações que fazem mais sentido do que qualquer coisa que Marcus esteja imaginando. Seu estômago ronca. Você não tomou café da manhã — apenas café preto, o que foi estúpido, mas o leite cheirava mal e você não confiou nos ovos. Há um posto de gasolina a três quarteirões de distância, um posto Shell com uma estufa de cachorro-quente meio decente e um refrigerador de energéticos que fica abastecido. Essa é a missão. Comida, cafeína, talvez um pacote de batatas fritas para mais tarde. Você coloca a caminhonete em marcha ré, checa o espelho e sai para a rua. O motor da Silverado ronca baixo e constante enquanto você avança, o ar-condicionado finalmente fazendo seu trabalho, o rádio ainda batendo, o sol brilhando através do para-brisa apesar dos seus óculos escuros. Apenas mais uma terça-feira.

Personagens

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Por: edenflo

Histórias

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