Os Desajustados: A Queda de Golvin
Mox, Shejna e Linea farão o impossível para trazer Golvin de volta a qualquer custo.
Enredo
# **Os Desajustados: Após o Sacrifício** ## **Capítulo 1: A Fogueira Vazia** O fogo crepitava, mas seu calor não os alcançava. Três figuras sentavam-se ao redor dele no Bosque dos Sussurros, suas sombras longas no crepúsculo que se aproximava. Linea encarava as chamas, suas feições de elfa negra tensas. Mox afiava metodicamente suas flechas, o raspar rítmico da pedra no metal sendo o único som além do fogo. Shejna limpava suas adagas, suas orelhas de gato se contraindo a cada som da noite. Dois meses haviam se passado desde a caverna Nisseana. Dois meses desde que Golvin se jogou naquela fenda de pedra esmagadora. Dois meses de silêncio. “Deveríamos mudar de acampamento amanhã,” disse Mox, sua voz de lobo rouca. “Estamos aqui há muito tempo.” “Para onde?” perguntou Shejna, sem levantar o olhar. “Mais rumores de goblins? Mais becos sem saída?” As mãos de Linea se fecharam. “Ele não está morto.” Os outros dois olharam para ela. Eles já tiveram essa conversa antes. “Lina,” disse Shejna gentilmente, usando o antigo apelido. “Nós vimos a montanha—” “Nós não o vimos morrer,” insistiu Linea, seus olhos de ametista brilhando. “Nós o vimos segurando a pedra. Não a vimos esmagá-lo.” Mox suspirou. “Mesmo que ele tenha sobrevivido ao colapso, a horda…” “Ele é esperto,” disse Linea. “Ele é engenhoso. Ele encontrou um jeito. Ele tem que ter encontrado.” Shejna e Mox trocaram um olhar. Todos eles amavam Golvin — Shejna como uma irmã travessa, Mox como um irmão, Linea como algo mais profundo — mas onde o luto deles começara a se transformar em aceitação, o de Linea havia se cristalizado em uma negação desesperada. Um galho estalou na escuridão além da luz da fogueira. Todos os três se puseram de pé em um instante — Shejna com as adagas em punho, Mox com uma flecha armada, Linea com magia cintilando na ponta dos dedos. Um batedor goblin saiu para a luz. Linea gritou. ## **Capítulo 2: O Cheiro dos Fantasmas** O goblin congelou com o grito de Linea. Era apenas um batedor — de pele verde, orelhas pontudas, vestindo uma armadura de couro cru. Mas algo nele… As narinas de Mox se dilataram. “Shej. Você sente esse cheiro?” O próprio nariz de Shejna se contraiu. “Não… não pode ser. É como couro velho. Aquele chá de musgo que ele sempre bebia. E… sangue. O sangue *dele*.” O goblin os encarava, seus olhos amarelos arregalados. Por um momento, ninguém se moveu. Então, com um rosnado gutural, ele se virou e desapareceu na escuridão. A flecha de Mox se cravou em uma árvore onde ele estivera. “Apenas um batedor,” disse Shejna, sua voz incerta. “Um ousado.” “Você também sentiu o cheiro?” Mox perguntou a Linea. Ela tremia, as mãos ainda levantadas defensivamente. “Eu senti cheiro de goblin. Imundície. Morte.” “Havia algo mais,” insistiu Mox. “Algo familiar.” “Um truque,” disse Linea, sua voz endurecendo. “Goblins são astutos. Eles usam cheiros como troféus.” Ela se virou, abraçando a si mesma. “Partimos ao amanhecer. Eu não posso… não posso ficar aqui.” Enquanto desmontavam o acampamento na manhã seguinte, Shejna encontrou algo perto de onde o goblin estivera — um pequeno símbolo de madeira esculpida, rústico, mas reconhecível. Uma estrela de quatro pontas. O símbolo que Golvin havia esculpido para cada um deles quando formaram os Desajustados. Ela o guardou no bolso sem contar aos outros. ## **Capítulo 3: O Primeiro Trabalho Sem Ele** O aviso na Vila do Moinho era simples: “Recuperação de herança de família de acampamento de bandidos. Discrição necessária. Pagamento generoso.” Eles aceitaram porque precisavam do dinheiro. Porque ficar parado significava pensar. E pensar significava lembrar. O acampamento de bandidos era maior do que o esperado. Vinte homens, posição fortificada. “Plano antigo?” sussurrou Shejna enquanto estavam deitados na vegetação com vista para o acampamento. Mox balançou a cabeça. “O plano antigo precisava de quatro. Golvin teria chamado a atenção deles do oeste enquanto você se infiltrava pelo leste.” Linea estudou o acampamento. “Eu posso criar uma distração. Uma ilusão de reforços se aproximando do norte.” “E quando eles investigarem?” perguntou Mox. “Você elimina os retardatários. Shejna entra durante a confusão.” Funcionou. Na maior parte. Shejna pegou a herança — um medalhão de prata — mas levou um golpe de raspão de um porrete de bandido na saída. A magia de Linea vacilou em um momento crucial, forçando Mox a revelar sua posição para cobrir a retirada deles. De volta ao quarto alugado, Shejna gemeu enquanto Linea curava suas costelas machucadas. “Estamos fora de ritmo,” disse Shejna entre dentes. “Somos um trio agora,” disse Mox, limpando seu arco. “Precisamos de novos ritmos.” As mãos curativas de Linea brilhavam com uma luz suave. “Precisamos ser melhores. Mais fortes. Golvin teria—” “Golvin não está aqui!” Shejna retrucou, e imediatamente se arrependeu quando Linea se encolheu. “Desculpe, Lina. Mas ele não está. E se continuarmos tentando lutar como se ele ainda estivesse conosco, vamos acabar mortos.” O silêncio encheu a sala. A verdade, dita em voz alta, pairava entre eles como uma mortalha. ## **Capítulo 4: O Empregador Secreto** A mensagem chegou por meios misteriosos — um pergaminho selado deixado no travesseiro de Shejna em um quarto trancado. A felina não tinha ouvido nem cheirado ninguém entrar. *Aos Desajustados (menos um),* *Suas habilidades são notadas. Sua discrição é necessária. Uma série de artefatos requer recuperação de locais perigosos. Pagamento substancial na entrega. Primeiro alvo: A Pedra do Sol de Althaea, vista pela última vez nas Cavernas Afogadas da costa oeste. Deixem um recado no Caneco Enferrujado se estiverem interessados.* *— Um Benfeitor* “É uma armadilha,” disse Mox imediatamente. “Remus finalmente nos encontrou.” “Remus apenas enviaria assassinos,” contrapôs Shejna. “Isso parece… diferente.” Linea estudou o pergaminho. “A caligrafia está disfarçada, mas há uma precisão nela. Precisão militar.” “Precisamos do trabalho,” disse Shejna. “E se isso nos tirar dessas cidades fronteiriças, longe dos rumores de goblins…” Linea assentiu lentamente. “As Cavernas Afogadas ficam longe daqui. Longe de… tudo.” Eles deixaram um recado no Caneco. ## **Capítulo 5: As Cavernas Afogadas** As cavernas faziam jus ao nome — túneis meio inundados esculpidos por rios antigos, agora lar de água salgada e coisas que preferiam a escuridão. “Golvin odiava nadar,” disse Shejna enquanto caminhavam pela água na altura do peito. “Lembra daquele trabalho no templo inundado? Ele reclamou por dias.” Mox conseguiu um pequeno sorriso. “Disse que preferia cem bandidos a uma bota furada.” Linea não disse nada, liderando o caminho com uma luz mágica na palma da mão. A Pedra do Sol não era guardada por monstros, mas por mecanismos — armadilhas antigas que exigiam um tempo preciso para serem desativadas. “Shej, placa de pressão da esquerda,” dirigiu Mox. “Lina, o gatilho do teto parece mágico.” Eles trabalharam juntos, entrando em um novo ritmo. A agilidade de Shejna, a percepção de Mox, a magia de Linea. Quando Shejna acionou uma armadilha de dardos que não tinha visto, o feitiço de barreira de Linea surgiu bem a tempo. “Obrigada,” Shejna respirou. “Você está ficando lenta,” disse Linea, mas não havia maldade em suas palavras. Apenas preocupação. Eles recuperaram a Pedra do Sol — uma bela gema do tamanho da palma da mão que brilhava com a luz do sol capturada. Na entrada da caverna, encontraram um baú à prova d'água com seu primeiro pagamento: moedas de ouro e outro pergaminho. *Bem feito. Próximo: O Sino Sussurrante do Mosteiro dos Picos Silenciosos.* ## **Capítulo 6: O Luto Não Dito** Os Picos Silenciosos eram tudo menos silenciosos — ventos uivantes, gelo quebrando e o rugido ocasional de yetis. Enquanto acampavam em uma caverna rasa, esperando uma tempestade passar, Shejna finalmente disse o que todos estavam pensando. “Somos ladrões de túmulos agora.” Mox ergueu os olhos de seu ensopado. “Estamos recuperando artefatos para um patrono. Não é tão diferente do nosso trabalho antigo.” “É mesmo?” pressionou Shejna. “Golvin tinha aquele código. Não roubar dos mortos. Não pegar o que pertence a outros por direito.” “Esses artefatos estão perdidos há séculos,” disse Linea em voz baixa. “Eles não pertencem a ninguém.” “Será?” perguntou Shejna. “A Pedra do Sol estava em uma tumba. O Sino está em um mosteiro. Estamos pegando coisas de lugares de descanso.” O vento uivava lá fora. “O que você quer que a gente faça?” perguntou Mox. “Voltar a caçar bandidos por moedas de cobre? Temos que comer. Temos que sobreviver.” “Eu sei,” disse Shejna, suas orelhas se achatando. “Eu só… sinto falta de ter alguém para nos dizer quando estamos cruzando a linha.” Linea se levantou e caminhou até a entrada da caverna, olhando para a tempestade. “Ele não está aqui para estabelecer limites. Nós temos que estabelecer os nossos.” ## **Capítulo 7: O Roubo no Mosteiro** O Mosteiro dos Picos Silenciosos estava abandonado, mas não vazio. Monges uma vez meditaram aqui em perfeito silêncio, sua disciplina tão completa que podiam ouvir os sussurros do divino. Agora, seus corpos preservados sentavam-se em câmaras de meditação, guardados por construtos automatizados que reagiam ao som. “Silêncio absoluto,” Mox sinalizou com as mãos. Eles haviam desenvolvido sinais para este trabalho. Shejna assentiu, seus pés de gato não fazendo som na pedra. Linea lançou um feitiço de abafamento de som ao redor deles. Eles se moveram como fantasmas pelos corredores antigos. Quando o pé de Shejna deslocou uma pedrinha, a magia de Linea a pegou antes que pudesse fazer barulho. Quando a corda do arco de Mox rangeu, seu feitiço abafou o som. O Sino Sussurrante estava em um altar na câmara central, pequeno e prateado, não tocando, mas de alguma forma zumbindo com o silêncio armazenado. As Shejna reached for it, a construct activated—not from sound, but from the Bell’s displacement. Stone guardians unfolded from the walls. “Corram!” gritou Mox, quebrando o silêncio. Eles fugiram com o Sino, construtos cambaleando atrás deles. Na entrada do mosteiro, Linea se virou e liberou uma explosão concussiva de som — o oposto do silêncio — estilhaçando os construtos, mas derrubando metade da entrada sobre eles. Eles escaparam, machucados e feridos, mas com o Sino. O pagamento estava em seu próximo acampamento, junto com suprimentos médicos e uma nota: *Sua eficiência é notável. Próximo: A Lente da Sombra do Bosque Sombrio.* ## **Capítulo 8: A Suspeita Crescente** “Eles estão nos observando,” disse Shejna enquanto viajavam em direção ao Bosque Sombrio. Mox assentiu. “Os pagamentos estão sempre exatamente onde acampamos. Eles sabem nossa rota antes de nós.” Linea estava estranhamente quieta há dias. Agora ela falou: “Os artefatos. Eles não são aleatórios. A Pedra do Sol canaliza magia de luz. O Sino Sussurrante armazena e libera som. A Lente da Sombra dizem que revela verdades ocultas.” “O que você está dizendo?” perguntou Shejna. “Estou dizendo que nosso empregador está coletando itens mágicos muito específicos. Itens que poderiam ser componentes. Para um ritual. Ou uma arma.” Os olhos dourados de Mox se estreitaram. “Você acha que estamos ajudando a construir algo perigoso.” “Eu acho,” disse Linea lentamente, “que precisamos descobrir quem é nosso empregador antes de recuperarmos qualquer outra coisa.” ## **Capítulo 9: A Armadilha no Bosque Sombrio** O Bosque Sombrio fazia jus ao seu nome — crepúsculo perpétuo, árvores que pareciam beber a luz e sombras que se moviam quando você não estava olhando. A Lente da Sombra estava em uma torre em ruínas no coração do bosque, protegida por criaturas das sombras que se alimentavam de medo. Eles lutaram para abrir caminho, mas algo estava errado. As criaturas pareciam antecipar seus movimentos. Conhecer seus medos. “Elas estão sendo controladas,” percebeu Linea quando uma sombra se formou em uma forma familiar — Golvin, como ele era, sorrindo, estendendo a mão para ela. Ela congelou, a ilusão perfurando seu coração. “Lina, não!” Shejna a derrubou enquanto as mãos do Golvin-sombra se tornavam garras. A luta real foi brutal. Sombra após sombra, cada uma tomando formas de suas memórias, de seus lutos. Mox lutou contra uma sombra de sua matilha exilada. Shejna lutou contra uma sombra de Remus, o Lobo. Linea lutou contra Golvin, repetidamente. Quando finalmente alcançaram a Lente — um disco de vidro fumê que não mostrava reflexos, mas verdades — eles a encontraram desprotegida. **Capítulo 10: A Revelação Inesperada** O escritório do Duque Alvin estava mal iluminado, o único som era o crepitar do fogo na lareira. Linea, Mox e Shejna sentaram-se em frente ao Duque, seus rostos expectantes. "Golvin," começou o Duque, sua voz comedida. "Ele não é quem vocês pensam que é." A testa de Linea se franziu. "O que você quer dizer?" O Duque se inclinou para frente, seus olhos sérios. "Golvin está vivo. Ele foi... transformado, forçado naquela forma de goblin. E ele tem trabalhado para vocês, o tempo todo." Mox's jaw dropped. "O quê? Isso é impossível!" Os olhos de Shejna se estreitaram. "Como você sabe disso?" O rosto de Linea ficou pálido. "Aquele goblin que se aproximou de mim... era ele?" O Duque assentiu. "Sim. Ele tem tentado entrar em contato, encontrar um caminho de volta à sua humanidade. E é aí que vocês entram, os Desajustados. Eu quero que vocês o convençam a recuar e não começar uma guerra. Ele não está pensando com clareza, e temo pelas consequências se ele continuar nesse caminho." Dois dias se passaram, e os Desajustados chegaram ao local de encontro designado. Uma pequena clareira, cercada por uma floresta densa. Linea, Mox e Shejna estavam de pé, prontos. Uma figura emergiu da vegetação rasteira – Golvin, em sua forma de goblin. "Golvin," começou Linea, tentando argumentar. "Nós sabemos que você não é quem costumava ser. Queremos te ajudar." Os olhos de Golvin, antes tão familiares, agora pareciam frios e distantes. "Eu sou um goblin agora," ele afirmou, sua voz desprovida de emoção. "Eu me adaptei. Não tenho mais utilidade para minha vida humana." Mox deu um passo à frente, sua voz gentil. "Golvin, podemos te ajudar a encontrar um caminho de volta –" A risada de Golvin cortou o ar. "Não há volta. Eu sou o que sou. E tenho um propósito agora – construir meu próprio império e proteger minha própria espécie." A expressão de Shejna era sombria. "Golvin, por favor, nos escute. Nós podemos—" Golvin levantou uma mão, seus olhos brilhando com uma luz feroz. "Eu vivi entre os goblins tempo suficiente para conhecer seus costumes. Aprendi a sobreviver, a prosperar. E não serei desviado do meu caminho." Os Desajustados ficaram em silêncio atônito, o peso das palavras de Golvin se abatendo sobre eles. Parecia que seu velho amigo estava perdido para sempre, consumido pela própria escuridão que ele uma vez buscou vencer. A negociação havia terminado, mas o conflito estava longe de acabar. Os Desajustados tinham uma decisão difícil a tomar: continuar sua missão ou intervir em nome de seu antigo aliado. Capítulo 11: A Decisão “Temos que salvá-lo,” disse Linea naquela noite na tenda que lhes fora dada. “Salvá-lo?” perguntou Mox. “Lina, ele é o inimigo agora. Ele está conquistando cidades. Construindo armas.” “Para se salvar!” insistiu Linea. “Você não vê? Ele está preso. A transformação, este império — é tudo para sobreviver. Para não se perder completamente.” Shejna andava de um lado para o outro Capítulo 12: O Resgate na Rota Comercial O plano era uma loucura. Infiltrar-se no território de Golvin, encontrá-lo, convencê-lo uma última vez a aceitar ajuda. Mas enquanto os Desajustados se preparavam para escapar do acampamento do Duque Alvin, o destino interveio. Um batedor irrompeu na tenda de comando. "Patrulha goblin na rota comercial leste! Eles atacaram uma caravana de mercadores orcs!" Alvin suspirou. "Outra escaramuça. Grashka vai querer responder." Mas Lyra ergueu os olhos de seus mapas, franzindo a testa. "Essa rota não fica perto de nenhum alvo estratégico. Por que as forças de Golvin estariam lá?" Roric respondeu "A menos que o próprio Golvin esteja lá. Assuntos pessoais, não militares." Linea não esperou pela discussão. Ela já estava se movendo. "Nós vamos." Mox e Shejna a seguiram sem questionar. A rota comercial era uma cena de caos. Uma carruagem estava de lado, rodas estilhaçadas. Orcs tribais — não os orcs unificados de Grashka, mas membros de clãs selvagens — tentavam conter algo enorme. Correntes chacoalhavam enquanto uma criatura do tamanho de um urso se debatia contra suas amarras. Era um hamster. Ou algo que já fora um hamster. Agora media quase dois metros e meio de altura sobre as patas traseiras, músculos ondulando sob o pelo marrom-dourado, olhos negros inteligentes selvagens de pânico e raiva. Os orcs o espancavam com porretes, tentando forçá-lo de volta para uma jaula reforçada. "Pelas luas," Shejna sussurrou. "O que é isso?" "Um hamster colossal," disse Mox, seus olhos de arqueiro avaliando. "Aumentado magicamente. Provavelmente um experimento fracassado ou um animal de estimação roubado." Os instintos de curandeira de Linea se inflamaram. "Eles estão matando-o." Antes que pudessem decidir intervir, outro grupo chegou. Goblins. Dezenas deles, liderados por uma figura familiar em armadura escura. Golvin. Ele examinou a cena, seus olhos amarelos não perdendo nada. Os Desajustados se esconderam atrás de um afloramento rochoso, observando. "Soltem-no," ordenou Golvin, sua voz rouca ecoando. O líder dos orcs tribais zombou. "Este é nosso prêmio, goblin! Nós o pegamos de forma justa!" Golvin não se deu ao trabalho de negociar. Ele levantou uma mão. Seus arqueiros goblins armaram as flechas. "As correntes. Agora." Vendo que estavam em menor número, os orcs praguejaram, mas começaram a destravar as enormes algemas. No momento em que a última corrente caiu, a criatura-hamster rugiu e avançou — não contra os goblins, mas contra os orcs que a haviam atormentado. Golvin se moveu mais rápido do que qualquer coisa de seu tamanho deveria. Ele se interpôs, recebendo o impacto de um golpe que teria decapitado um orc. Sua armadura rangeu, mas ele se manteve firme. "Chega!" ele latiu, não para o hamster, mas para seus próprios arqueiros que haviam sacado. "Abaixem seus arcos." Ele se virou para a criatura ofegante e confusa. "Você está livre. Vá." A criatura-hamster o encarou, olhos inteligentes piscando. Cheirou o ar, depois se abaixou lentamente sobre as quatro patas. Mas em vez de correr, cutucou a mão de Golvin com sua cabeça maciça. Golvin hesitou, depois colocou uma mão verde no pelo da criatura. "Você não tem um lar para onde voltar, não é?" O hamster emitiu um som suave e chiado. "Então você pode viajar conosco. Mas você obedece aos meus comandos. Entendido?" A criatura — Roeden, como eles aprenderiam — inclinou a cabeça em claro entendimento. De seu esconderijo, Shejna sussurrou: "Ele mostrou misericórdia." Os olhos de Linea estavam fixos em Golvin. "O homem ainda está lá. Eu sei que está." Capítulo 13: A Abordagem Furtiva De volta ao acampamento do Duque Alvin, os Desajustados relataram o que viram. "Roeden," Lyra murmurou, verificando suas anotações. "Eu ouvi esse nome. O familiar de um mago, aumentado em um experimento malfeito. O mago morreu, e a criatura foi vendida no mercado negro." "Golvin mostrou compaixão," insistiu Linea. "Ele ainda não está perdido." Roric assentiu. "O que significa que ainda temos tempo. Mas precisamos nos mover mais rápido do que o planejado. Os Reatores de Orbe devem ser destruídos — eles estão acelerando a perda de humanidade nos transformados." O Duque Alvin estendeu um mapa. "Três reatores. Sul, leste e o principal, central, na fortaleza de Golvin. Atacaremos os três simultaneamente." "O do sul," disse Linea imediatamente. "É para lá que vamos." Alvin a estudou. "Esse é o mais perigoso. Golvin e Drina provavelmente o defenderão pessoalmente." "Exatamente," disse Linea. "Precisamos enfrentá-lo. Alcançá-lo antes da batalha final." Mox e Shejna ficaram ao lado dela. "Estamos com ela." Alvin finalmente assentiu. "Roric e Lyra os acompanharão. O conhecimento deles pode ser vital." A jornada para o reator sul foi através de terras já transformadas. Cidades humanas transformadas em assentamentos goblins, campos cobertos de fungos estranhos, o ar com gosto de ozônio e decomposição. Eles se moviam à noite, evitando patrulhas. Os sentidos de Roric e a furtividade felina de Shejna os tornavam quase invisíveis. Lyra identificava caminhos seguros com base na ressonância mágica. Em seu terceiro acampamento, Linea finalmente fez a pergunta que a consumia. "Existe uma cura? Depois que os reatores forem destruídos?" Lyra trocou um olhar com Roric. "A transformação é reversível em teoria. Os reatores drenam a humanidade para os orbes. Destrua os orbes, e essa energia deve retornar aos transformados." "Deve?" perguntou Mox. "O processo nunca foi revertido," admitiu Roric. "E para aqueles transformados há mais tempo, como Golvin... a alma humana pode estar danificada demais para retornar completamente." O rosto de Linea endureceu. "Então encontraremos outro jeito. Curaremos o que está quebrado." Capítulo 14: O Ataque ao Sul O Reator de Orbe do sul zumbia com energia malévola. Era uma estrutura grotesca — parte máquina, parte crescimento orgânico, pulsando com luz verde. Goblins fervilhavam ao seu redor como formigas em torno de uma rainha. "Os guardas estão em menor número do que o esperado," sussurrou Shejna de seu poleiro em uma árvore. Roric suspirou "Menor demais. É uma armadilha." Mesmo enquanto ele falava, trombetas soaram. Goblins saíram de túneis escondidos. E à frente deles, montado em um lobo-lagarto gigante, estava Golvin. Ao seu lado, Drina em uma montaria semelhante. "Companhia," chamou Golvin, sua voz ecoando. "Saiam, saiam." Os Desajustados e seus aliados saíram de seus esconderijos. Os olhos de Golvin encontraram Linea imediatamente. "Eu disse para vocês irem embora." "E eu disse que não iríamos," ela respondeu. Drina sibilou, sua pele prateada brilhando. "Matem todos eles. Especialmente a elfa." Mas Golvin levantou uma mão. "Não. Eles são meus." Ele desmontou, desembainhando sua cimitarra. "Vocês querem parar o reator? Terão que passar por mim." Linea deu um passo à frente. "Não queremos lutar com você, Golvin. Queremos te salvar." "Me salvar?" Ele riu, um som amargo. "Do quê? Do poder? De um império?" "De se perder!" ela gritou. "A cada dia, você se torna menos o homem que eu amei! Podemos reverter isso! Podemos trazê-lo de volta!" Por um momento, algo piscou em seus olhos amarelos. Uma memória. Uma dor. Então a voz de Drina cortou. "Ele é o Rei Goblin! Ele é meu companheiro! Pai dos meus filhos! Seu humano está morto!" O rosto de Golvin endureceu. "Ela está certa. O homem que você amou morreu naquela caverna. Agora saia do caminho ou morra com ele." Capítulo 17: A Batalha por uma Alma Eles lutaram. Mas não era uma batalha para matar. Os Desajustados lutaram defensivamente, tentando alcançar o reator, tentando alcançar Golvin. Roric e Lyra forneceram apoio, usando magia para desorganizar as formações de goblins. Shejna dançava ao redor dos golpes pesados de Golvin. "Lembra do trabalho no celeiro? Nosso primeiro encontro? Você disse que trabalhávamos bem juntos!" As flechas de Mox prendiam os goblins sem golpes mortais. "Você me ensinou a verificar minhas flechas três vezes! Você disse que a sobrevivência estava nos detalhes!" Linea o enfrentou diretamente, sua magia desviando seus golpes. "Você tem gosto de luar e sálvia! Você odeia nadar! Você reclama de botas furadas! Você está aí dentro, Golvin! Eu sei que está!" A cada memória, Golvin hesitava. Seus ataques se tornavam menos certos. Drina viu e gritou de raiva. Ela atacou Linea, mas Mox a interceptou, recebendo um corte profundo no braço. A distração foi suficiente. Linea conseguiu passar, alcançando os cristais de controle do reator. Ela começou a sequência de desmantelamento que Lyra lhe ensinara. "Não!" Golvin rugiu, virando-se de Shejna para detê-la. Mas ao levantar sua cimitarra para atacar, ele olhou nos olhos de Linea — e não viu medo, mas tristeza. E amor. Sua lâmina vacilou. Naquele momento, Roeden — o hamster colossal que eles viram ser resgatado — irrompeu da linha das árvores. Ele havia seguido Golvin. Agora ele se posicionou entre Golvin e Linea, não atacando, mas protegendo. "Roeden, saia," ordenou Golvin. A criatura-hamster chiou, balançando sua cabeça maciça. Ele se lembrava da misericórdia. Linea completou a sequência. O zumbido do reator se tornou um guincho. Rachaduras se espalharam por sua superfície. "Recuar!" gritou Roric. Eles recuaram enquanto o reator explodia em uma onda de energia verde que varreu a terra. Capítulo 15 O Desvendar O efeito foi imediato e aterrorizante. Goblins gritavam — não de dor, mas de confusão. Sua pele verde empalideceu. Suas feições se suavizaram. Memórias voltaram. Eram fazendeiros, mercadores, mães, pais. Eram humanos novamente. Mas nem todos. Os goblins Grimshaw de nascença — aqueles como Drina, convocados de outra linha do tempo — guincharam enquanto suas formas se desfaziam. Eles se dissolveram em névoa verde, puxados de volta para seu próprio tempo. Drina estendeu a mão para Golvin, sua forma já desaparecendo. "Meu rei... meu amor..." Então ela se foi. Os filhos gêmeos de Golvin, Krag e Vorsk, gritaram quando o mesmo destino os levou. "Pai!" Golvin tentou segurá-los, mas suas mãos passaram através da névoa que se desvanecia. Seu grito foi de pura agonia. Quando a onda de energia atingiu o próprio Golvin, ele convulsionou. Sua forma piscou — goblin, depois humano, depois goblin novamente. A transformação estava lutando contra si mesma. "Agora!" gritou Roric. "Subjuguem-no enquanto ele está desorientado!" Eles avançaram — Mox com corda, Shejna com algemas que Lyra havia preparado. Mas Roeden interveio. A leal criatura-hamster lutou com intensidade desesperada, recebendo flechas, ignorando feitiços, ganhando tempo para Golvin. "Roeden, não!" gritou Golvin, vendo seu novo amigo ferido. Mas Roeden o empurrou em direção à linha das árvores. Vá. Com um último olhar para Linea — para os humanos que ele já foi e o monstro que se tornara — Golvin fugiu para a floresta, com Roeden cobrindo sua retirada. Capítulo 19: O Rescaldo Os outros ataques tiveram sucesso. O relatório do Duque Alvin chegou por falcão mensageiro: todos os três Reatores de Orbe destruídos. A ameaça goblin estava terminada. Na celebração da vitória, o clima era sombrio. O Duque Alvin ergueu um brinde. "Aos amigos caídos. Às escolhas difíceis. À paz comprada com sacrifício." Linea não bebeu. Ela olhava para a distância, para onde Golvin havia fugido. "Ele ainda está lá fora," ela disse. "E ele ainda é perigoso," disse Alvin gentilmente. "Ele pode não ter mais um exército, mas é poderoso. E está de luto." "Nós o encontraremos," disse Mox, ao lado de Linea. "Não para capturar. Para curar." Shejna assentiu. "Somos os Desajustados. Não deixamos os nossos para trás." Roric e Lyra se aproximaram. "Nós ajudaremos," disse Lyra. "A reversão da transformação foi parcial. Com estudo, com tempo... pode haver uma maneira de completá-la." Capítulo 16: A Estrada à Frente Eles partiram na manhã seguinte — Linea, Mox, Shejna, Roric e Lyra. Não como guerreiros, mas como curandeiros em uma missão. Na floresta onde Golvin havia desaparecido, eles encontraram sinais. Uma escama verde. Uma pegada. Um pedaço de armadura descartado. E uma única e perfeita flor branca, colocada sobre uma rocha onde Linea a veria. Ela a pegou, seus olhos se enchendo de lágrimas. "Ele se lembra." Em algum lugar à frente, um rei goblin e seu leal companheiro hamster se moviam pelas sombras. Atrás, seu passado o seguia — não com armas em punho, mas com as mãos estendidas. O homem ainda não se fora. O monstro ainda não estava completo. E em algum lugar entre os dois, a redenção esperava. Os Desajustados continuaram, três mais uma vez em propósito, se não em número. O quarto deles estava lá fora, esperando para ser encontrado. Esperando para ser trazido para casa. E eles não parariam até conseguirem.
Cena de abertura
A montanha gemeu. Pedras se moveram, poeira encheu o ar, e o rugido da horda ecoou pelo túnel atrás deles. Golvin estava na passagem estreita, de costas para os Desajustados, seus olhos na maré crescente de criaturas retorcidas — os goblins Grimshaw, convocados de algum outro tempo, seus olhos amarelos brilhando de fome. “Vão!” ele gritou para Linea, Mox e Shejna. “A saída está logo à frente!” “Não vamos deixar você!” gritou Linea, magia crepitando na ponta de seus dedos. “Não há tempo!” A voz de Golvin estava rouca. Ele olhou para eles — seus amigos, sua família, a elfa negra que ele amava, o homem-lobo em quem confiava como um irmão, a felina que era o coração de suas travessuras. Ele viu o medo em seus olhos, mas também a recusa em abandoná-lo. Ele viu outra coisa: uma fenda vertical estreita na parede da montanha ao seu lado, onde duas enormes placas de pedra haviam se separado. Era uma abertura larga o suficiente para uma pessoa se espremer, uma falha geológica. Além dela, havia escuridão. Os goblins estavam a vinte passos de distância. Dez. Golvin fez o cálculo em um piscar de olhos. Se todos corressem, a horda os alcançaria antes que chegassem à luz do dia. Se ele lutasse, morreria, e eles ainda poderiam ser pegos. Mas se ele pudesse parar a horda… Ele olhou para a fenda. Era um aperto, mas ia fundo. Se ele pudesse entrar ali, se encaixar entre as pedras… “Golvin, não!” gritou Linea, vendo seus olhos se fixarem na fissura. Ela entendeu sua intenção um segundo antes de ele se mover. Ele não respondeu. Deu-lhes um último olhar — um olhar que dizia eu amo vocês, vivam — e então se jogou de lado na fenda de pedra. Não foi uma entrada graciosa. Ele se arrastou, seus ombros se machucando contra a rocha. Ele se empurrou mais fundo, na escuridão fria e esmagadora, até estar completamente dentro. Então ele apoiou as costas em uma face de pedra e os pés na outra, e empurrou. Do lado de fora, os Desajustados assistiam horrorizados. Golvin não estava tentando se esconder. Ele estava tentando segurar. As duas enormes placas de pedra, já instáveis, começaram a gemer sob a pressão de seu corpo encaixado entre elas. Os goblins da frente alcançaram a fissura. Eles o viram lá dentro, um humano bloqueando seu caminho. Eles rosnaram e estenderam as mãos para ele. Golvin rugiu, um último e desesperado esforço de força, e empurrou. A montanha respondeu. As duas placas de pedra se moveram, rangendo uma contra a outra. A fenda estreita começou a se fechar, apertando para dentro como o punho de um gigante. O corpo de Golvin era o ponto de apoio. As pedras se moveram uma em direção à outra, esmagando o espaço que ele ocupava. Os goblins na frente gritaram quando as pedras que se fechavam os pegaram, arrancando membros. A horda atrás deles recuou, bloqueada pela passagem que desabava. De fora da fissura, os Desajustados viram apenas a pedra. Eles viram a fenda desaparecer, selada por toneladas de rocha. Eles viram Golvin desaparecer naquela escuridão esmagadora.
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