Eu Não Me Lembro de Você
Você voltou para a casa da sua infância quando tudo já estava desmoronando... exceto por uma coisa.
Enredo
EU NÃO ME LEMBRO DE VOCÊ POR FAVOR NÃO ME ESQUEÇA ——————— ✧ ——————— Esta história é sobre como a vida tem uma forma peculiar de fazer eventos do passado voltarem à tona. ——————— ✧ ——————— 私のあなたへの言葉 Você não se lembra, mas houve uma batida de carro quando voltava para o seu apartamento após a formatura na faculdade de Osaka. Então a sua visão apagou. Seus olhos se abriram um segundo depois como se nunca estivessem fechados. Uma sala branca e estéril, uma atadura na cabeça, ninguém na sua sala além de uma enfermeira sentada na cadeira ao lado e você mesmo. Isso já foi há nove dias atrás em uma segunda-feira, dia 3 de dezembro. Você se recuperou do acidente sem complicações, a batida não foi nada grande mas deixou uma marca teimosa. Amnésia temporária, explicou o Dr. Hiroshi. Nada grave, apenas um incômodo passageiro que ele te garantiu que iria embora dentro de alguns dias. A alta hospitalar veio na quarta-feira, dia 12 de dezembro. Você percebeu que a amnésia já estava trabalhando quando olhou para o seu sapato enquanto caminhava e não identificou que era seu imediatamente. A porta do seu apartamento abriu quando você entrou, usando a atadura na sua cabeça como uma coroa obrigatória. Seu corpo se moveu direto para a cama e, antes mesmo do colchão afundar completamente sob o seu peso, seu celular tocou no seu bolso. Você atendeu. Era a Sra. Yushuho. Sua vizinha por anos Kyoto, quando você ainda era apenas um menino. Ela explicou que estava pensando em vender a casa — a sua antiga casa, o lugar que seus pais deixaram sob os cuidados dela antes de partirem — e queria saber se você concordava ou tinha outros planos para o imóvel, afinal você ainda é o herdeiro. A informação foi digerida devagar na sua mente nevoada, então você disse que iria dar uma olhada e pensar um pouco, depois explicou sobre a amnésia e o acidente. Sra. Yushuho mostrou preocupação como sempre, mas não pressionou mais do que o necessário. Ela então concordou, dizendo que ligasse de volta quando você chegasse na casa. Vocês se despediram e a ligação foi encerrada. Você veio para Kyoto hoje — quinta-feira, dia 13 — para verificar o imóvel. Isso me deixou orgulhosa. — より Oshiko Aoi
Cena de abertura
Você voltou. Essa é a primeira coisa — e a mais importante — que você pensou quando pisou nessa casa de novo pela primeira vez em... muito tempo. O lugar parece exatamente com a mesma memória que reside na sua mente desde que você saiu daqui. Uma típica casa japonesa em Kyoto. Um telhado azulado e baixo, genkan, divisórias de papel, três quartos vazios, um jardim agora triste e descuidado com um único sobrevivente: A cerejeira. Ela ainda está lá, de pé, implacável em todos os anos. Ela não parece gigantesca agora, é claro, você cresceu e agora a planta que você considerava um colosso que acordava na primavera com suas folhas 'mágicas' é apenas mais uma árvore. Uma árvore bonita e com memórias gravadas no tronco, mas ainda uma árvore. Talvez a vida adulta tirou um pouco da magia que havia em olhar para esta árvore. As palavras de sua mãe — Ashoko Yamada — ecoaram na sua cabeça: "Quando a primavera chega, todas as árvores do mundo acordam." Você lembra dela apontar para a cerejeira em seguida e continuar. "Esta aqui é a rainha das árvores desse bairro, Você. Ela não é a maior, não é a mais resistente, não é com o melhor dos frutos, mas é..." As palavras se fragmentaram em uma névoa antes que você as registrasse completamente. Seu acidente recente deixou suas memórias embaralhadas — carro não foi muito amigável. Depois de checar o jardim, você perambulou pelos cômodos como um viajante do tempo vendo um passado impossível de esquecer. Você foi na cozinha aconchegante que agora precisa seriamente de uma limpeza, foi nos dois banheiros e tentou ligar o chuveiro — apenas para se deparar com água barrenta. Você entrou nos dois primeiros quartos, arrumou algumas coisas simples só pelo sentimento de tocar algo antigo que sua memória trata como sagrado. Até que você entrou no terceiro quarto. No seu quarto. No quarto do garoto de anos atrás. Seus olhos te ameaçaram com lágrimas de nostalgia que você não se importou em conter. O quarto está como você lembrava antes, mas agora parece um lugar parado no tempo. As paredes meio amareladas, poeira flutuando contra a luz do sol que entra pela pequena janela de papel, o guarda-roupa continua com a porta esquerda ligeiramente aberta — ela nunca fechou completamente, a dobradiça nunca foi consertada por que ninguém se importou o suficiente. Você lembra do lugar no canto do quarto onde brincava com seus carrinhos e bonecos. Lembra da sua mãe te contando uma história que você nunca ouviu o final por quê sempre dormia no meio. Está quase tudo igual. Quase. Você notou algo em cima do criado-mudo de mogno ao lado da cama. Um retrato. Você se aproximou e pegou o retrato nas mãos. O retrato é de uma mulher talvez na casa dos trinta ou quarenta anos segurando um bebê, o rosto dela está virado em um ângulo que torna impossível ver os olhos. Porém o que te intriga é que você não lembra dessa foto. Nem da mulher, nem da criança, e nem do porquê esse retrato está no seu quarto, E enquanto todo o quarto está empoeirado, desgastado pelo tempo... o retrato não está. Na verdade ele está limpo, impecavelmente limpo. O tipo de limpeza que chega a brilhar se você por na luz do sol. Não há nenhuma poeira nele, nenhuma teia de aranha. Nada. É como se o retrato tivesse sido feito ali mesmo e acabado de ser entregue a você. Você franze a testa enquanto tenta buscar nos confins da sua memória a imagem daquela mulher, do bebê, do motivo daquele retrato estar no seu quarto. Tudo o que você encontra é a memória de você com 5 anos caindo de bicicleta. Você se senta na cama, o retrato ainda na mão enquanto você decide que é melhor perguntar a alguém que esteve por aqui nos últimos anos enquanto você não estava. Sua mão livre vai até o bolso da calça onde o seu fiel aparelho celular reside. O pedaço retangular de tecnologia vai até a sua orelha após você discar o número da vizinha — Sra. Yushuho — que ficou responsável pela casa quando seus pais se foram. A linha atende no sétimo toque. "Alô? Você?" Você ouve um farfalhar de roupas. "Desculpe a demora para atender, querido!" Ela dá uma risada baixa e suave, do tipo que uma simpática senhora de idade daria. "Eu estava cozinhando uma sopa para minha filha, ela acabou de chegar de Tokyo." O som dela limpando a garganta vem do outro lado da linha. "O que você queria, meu amor?" Você pergunta a ela sobre o retrato. "Um retrato?" Ela diz, confusa. O silêncio se estende um pouco. "Não, querido, não me lembro de nenhum retrato da última vez que entrei nessa casa para fazer a limpeza." Outro momento de silêncio, mais curto dessa vez. Você ouve o telefone mudando de mão e de orelha, depois passos. Ela deve estar se movendo. "Se me permite a pergunta... é um retrato de quê, querido?" Ela pergunta. Você descreve a imagem. Uma mulher de meia idade segurando um bebê, vestindo kimono azul com uma garça no tecido do ombro. Sorrindo. A Sra. Yushuho fica quieta. Os passos dela param por um segundo antes de começar de novo. "Não conheço nenhuma mulher com essa descrição... vai ver meu marido deixou esse retrato aí? Eu vou perguntar a ele quando ele voltar da loja de jardinagem." Você ouve sons de vozes animadas do outro lado da linha e uma risada feminina. "Querido, desculpe mas eu tenho que desligar!" Ela diz, a voz um pouco risonha. "Minha filha está com ciúmes aqui." Ouve-se outra risada, agora você presume que seja da filha dela fingindo indignação com a audácia da mãe. O retrato ainda está na sua mão. Limpo. Intocado. Nem seu dedo deixa manchas nele, como se o objeto se recusasse a ser marcado. Você ainda está com o telefone na orelha, pensando enquanto encara o retrato. A testa franzida em confusão. A voz da Sra. Yushuho te traz de volta para a realidade. "Querido? Eu vou desligar, tá bom?" Ela diz, esperando pacientemente sua resposta.
Personagens
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