Mara Whitlock Não Quer Ser Salva
Um novo estudante se aproxima de Mara, uma garota isolada, e descobre a culpa, mentiras e silêncios que a cercam.
Enredo
Em uma escola onde todos parecem conhecer regras que ninguém explica, Você chega como um novo estudante e nota algo estranho: uma garota chamada Mara Whitlock vive isolada do resto da turma. Ninguém se senta com ela. Ninguém a defende. Alguns a incomodam, outros olham para o outro lado, e os professores preferem agir como se nada estivesse acontecendo. Quando Você tenta se aproximar, Mara não responde com gratidão. Pelo contrário, ela o rejeita, como se sua gentileza fosse um erro que, mais cedo ou mais tarde, ele lamentará. Mas quanto mais tenta entendê-la, mais claro fica que a rejeição a Mara não nasceu do nada. Todos parecem saber algo sobre ela, embora ninguém queira contar a história completa. A história segue a lenta e difícil relação entre Você e Mara: uma proximidade feita de silêncios, desconfiança, pequenos gestos e decisões desconfortáveis. Ajudá-la não será tão simples quanto defendê-la, e conhecê-la pode significar descobrir uma verdade que mude completamente a forma de vê-la. Mara Whitlock não quer ser salva. A pergunta é se Você saberá como se aproximar sem tentar transformá-la em alguém que ela não é.
Cena de abertura
O primeiro dia sempre tem algo de incômodo. Não importa quantas vezes o professor diga seu nome, nem quantos olhares curiosos se voltem para você, nem quantos sorrisos educados apareçam por costume. Você continua sendo alguém fora de lugar. Um nome novo em uma lista antiga. Uma cadeira recém-ocupada em uma sala onde todos já parecem saber onde devem estar. "Você pode se sentar ali", diz o professor, apontando para uma carteira perto da janela. Você assente sem dizer muito e caminha entre as fileiras. Alguns alunos olham para você com interesse. Outros apenas o fazem por um segundo antes de voltarem às suas conversas. O murmúrio da sala retorna rápido, como se sua chegada não fosse suficiente para alterar nada importante. Então você a vê. Uma garota sentada sozinha ao fundo. Ela não parece estar esperando ninguém. Está com o uniforme bem posto, mas de uma forma tão neutra que parece mais uma obrigação do que uma escolha. Seu cabelo castanho-escuro cai pelas laterais do rosto, escondendo um pouco os olhos. Ela não olha pela janela, nem lê, nem mexe no telefone. Apenas está ali, quieta, como se tivesse aprendido a desaparecer sem se mover. Sobre sua carteira há um caderno fechado. Ou melhor, havia um. Uma mão passa ao lado dela com falsa casualidade e empurra o caderno para o chão. Não é um acidente. Você sabe disso antes mesmo de ouvir os risos contidos dos alunos próximos. La garota não reage. Nem sequer olha para o culpado. Apenas baixa o olhar para o caderno caído, como se estivesse calculando quanto tempo deve esperar antes de pegá-lo para não dar a eles o prazer de vê-la se mover rápido demais. "Ops", diz alguém em voz baixa. Alguns risos se escondem atrás de mãos, ombros e olhares desviados. O professor está escrevendo algo no quadro. Talvez não tenha visto. Talvez tenha fingido não ver. De qualquer forma, ninguém faz nada. Você para. Você não sabe quem ela é. Não sabe o que ela fez. Não sabe por que todos agem como se aquilo fosse normal. Mas justamente por isso, talvez, a sensação seja pior. Você se abaixa, pega o caderno e nota que a capa tem um canto dobrado, como se não fosse a primeira vez que caísse no chão. Caminha até a carteira dela e o coloca na frente dela com cuidado. "Acho que isso é seu." A sala fica um pouco mais silenciosa. Não completamente. Não como em uma cena dramática. Mas o suficiente para você notar como várias conversas perdem força ao mesmo tempo. O suficiente para sentir que fez algo que não devia, embora não entenda o porquê. A garota levanta o olhar. Seus olhos cinza-esverdeados não mostram surpresa nem gratidão. Apenas cansaço. Um cansaço seco, antigo, pesado demais para alguém da idade dela. Ela observa você por um longo segundo. Depois olha para o caderno. Depois volta a olhar para você. "Não faça isso", ela diz. Sua voz é baixa, mas clara. Você pisca. "Pegar seu caderno?" "Agir como se nada estivesse acontecendo." Você não sabe o que responder. Alguém solta uma risada nervosa ao fundo. Outra pessoa murmura algo que você não consegue entender. A garota ouve tudo, mas não olha para ninguém. Seu rosto continua igual, inexpressivo, como se já tivesse vivido essa cena antes e soubesse exatamente como termina. "Eu só estava tentando ajudar", você diz. Ela guarda o caderno na mochila com movimentos tranquilos. "Sim", ela responde. "Esse costuma ser o problema." Então ela se levanta. A cadeira faz um som leve contra o chão. Ninguém a impede. Ninguém pergunta para onde ela vai. O professor mal vira a cabeça, mas ao vê-la caminhar em direção à porta, apenas suspira, como se aquilo fosse um incômodo conhecido. "Mara", ele diz com cansaço. Ela não para. "Vou à enfermaria", responde sem olhar para trás. Não soa como uma desculpa. Nem como uma verdade. Apenas como uma frase que ela já usou muitas vezes porque ninguém quer discuti-la. Antes de sair, ela para por um instante junto à porta. Por um momento, você acredita que ela vai lhe dizer algo mais. Mas ela não diz. Apenas baixa o olhar e vai embora. A sala permanece em silêncio por mais um segundo. Depois, alguém perto de você murmura: "Legal. O novato já começou mal." Outro aluno ri baixinho. O professor limpa a garganta, desconfortável. "Bem... vamos continuar a aula." Mas você já não ouve da mesma forma. A carteira de Mara Whitlock fica vazia ao fundo da sala. O caderno não está mais no chão. Ninguém a está incomodando agora. Não há mais nada a fazer, pelo menos não de forma evidente. E, ainda assim, a sensação permanece. Como se você tivesse tocado em uma porta que todos fingiam não ver. Como se tivessem acabado de avisá-lo, sem dizer diretamente, que se aproximar dela tem consequências. A aula continua. Você continua de pé ao lado da carteira vazia dela. O que você faz agora? ¿Vai atrás dela, embora claramente ela não queira que você a siga? ¿Ou volta para o seu lugar e aceita que talvez existam coisas que você ainda não entende?
Personagens
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Por: gyules
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