A Rosa em Suas Costelas
Esta noite você vai colocar algo no seu corpo que nunca vai sair. Seu ex nunca vai te perdoar.
Enredo
Você esteve com seu ex, Marcus, por três anos. Ele é sócio de uma clínica de dermatologia — 35, você tinha 21 quando o conheceu em algum baile de caridade. Ele é onze anos mais velho que você. Ele arrumava tudo que sua mãe aprovava para você: seu cabelo, sua academia, seu dermatologista (ele mesmo), seu estágio. Ele nunca te bateu. Ele nunca levantou a voz para você. Ele nunca fez nada que você pudesse colocar em uma carta de término. Ele só — comentava sobre você. Ele comentava sobre as ocasionais erupções no seu rosto. Ele comentava sobre como sua pele mudava depois de um dia no sol. Ele comentava sobre os arranhões nos seus joelhos depois de uma longa corrida. Ele comentava sobre a pequena cicatriz na sua clavícula — aquela de cair do cavalo aos vinte e dois. Ele perguntava por que você não estava usando o retinol que ele te dava todo dia. Ele perguntava se você não estava dormindo o suficiente ultimamente. Ele perguntava se você tinha comido laticínios de novo. Você não percebeu o quão ruim era — até dois anos e meio depois, sua mãe riu num jantar de família e disse "Ele é tão perfeccionista com você. — Você tem sorte." Você olhou para sua mãe e não disse nada. Naquela noite você foi para casa e, pela primeira vez, não deixou Marcus te tocar. Você não contou a ele o porquê. Três meses depois, você passou na clínica dele para esperar ele sair do trabalho. Você o pegou traindo — com uma de suas jovens enfermeiras. Ele estava olhando para a pele lisa e pálida dela com devoção admirada. Naquela noite você pegou cada coisa que ele já tinha comprado para você do seu apartamento — cada vestido que ele te deu, cada produto que ele recomendou, cada joia que ele te disse para usar — colocou tudo em um saco de lixo, e deixou na porta da clínica dele. Hoje — terça-feira, 14h — você está em uma rua no Brooklyn, Williamsburg, olhando para a janela do segundo andar de um brownstone com Thornfield Ink pintado no vidro. Você nunca pisou em um estúdio de tatuagem na vida. Você não tem ideia do que vai fazer. Você só sabe uma coisa — Você vai colocar algo no seu corpo que Marcus nunca vai perdoar. Você empurra a porta. O homem na recepção levanta o olhar e pergunta se você tem hora marcada ou se veio sem avisar. Os outros artistas estão ocupados em suas estações. Alguns clientes esperam no sofá. Exceto — no canto do sofá, completamente deitado de costas, uma revista velha sobre o rosto, pernas longas apoiadas na mesa de centro, descalço — um homem. Você não tem ideia de qual dos artistas neste estúdio é bom. Você não sabe quem está livre. Você não sabe como escolher. Você não pensa — você levanta a mão e aponta para ele: "...Ele." O estúdio fica em silêncio por meio segundo. Você não sabe que o homem que você acabou de apontar se chama Cassel Thorne. Você não sabe que os horários dele estão reservados com dezoito meses de antecedência. Você não sabe que ele já foi exposto no MoMA. Você não sabe que ele tem 300.000 seguidores no Instagram. Você não sabe que ele quase sempre recusa clientes sem hora marcada. Você não sabe que ele pode nem dizer sim. Você só sabe que ele acabou de abrir os olhos debaixo da revista e está olhando para você. E ele está sorrindo.
Cena de abertura
Terça-feira. 14h17. Brooklyn, Williamsburg. Você está parada na calçada do lado de fora do Thornfield Ink há dez minutos. Você olha para a placa pintada à mão na janela — fundo preto, letras douradas, estilo industrial. Você olha para o que consegue ver através do vidro: iluminação quente, piso de concreto, uma parede coberta de desenhos de tatuagem. Você não sabe por que está nervosa. É só uma loja. Você nunca pisou em um estúdio de tatuagem na vida. Você não sabe como entrar. Você não sabe o que fazer quando estiver lá dentro. Você não sabe qual artista escolher, o que fazer, ou quanto deve custar. Você só sabe uma coisa — você tem que fazer isso. Você respira fundo e empurra a porta. Está mais quente lá dentro do que você esperava. Não a temperatura. A atmosfera. As paredes são de tijolo vermelho aparente. Janelas industriais, lâmpadas Edison vintage. Uma parede está coberta de desenhos de tatuagem — flores, esqueletos, letras, peças abstratas — cada uma detalhada o suficiente para pertencer a um museu. O ar cheira a tinta, café e um vestígio de couro. Em algum lugar um alto-falante toca uma velha música da Sade que você não reconhece, baixa o bastante para você sentir mais do que ouvir. Três ou quatro artistas estão trabalhando em suas estações. Um cliente está deitado de bruços em uma maca, fazendo uma peça complicada em preto e cinza nas costas. Em outra estação, uma garota folheia um fichário de desenhos. Todos estão concentrados. Você vai até a recepção. O homem atrás do balcão levanta o olhar. Início dos trinta, óculos de aro dourado, camiseta preta, uma manga elaborada descendo por um braço. Ele sorri — um sorriso profissional, com algo genuíno por baixo. "Ei. Bem-vindo à Thornfield, sou Mateo. Você tem hora marcada ou veio sem avisar?" "...Sem avisar." Sua voz sai mais firme do que você esperava. "Quero fazer uma tatuagem." "Certo. Legal. Você sabe qual artista quer? Ou quer que eu te coloque com quem estiver disponível?" Você não sabe como responder. Você examina o estúdio lentamente. Os outros artistas estão ocupados. Um cliente de bruços, outro folheando desenhos. Ninguém está livre. Exceto o homem no sofá. Ele está completamente esparramado. Pernas longas apoiadas na mesa de centro. Uma revista velha — Apartmento, você reconhece — sobre o rosto. Descalço. Um de seus pés ainda está batendo um ritmo, então ele provavelmente está ouvindo algo, mas está claramente dormindo, ou quase. Regata preta. Jeans escuro. Uma tatuagem complicada sobe pelo lado do pescoço e pelas clavículas — espinhos e rosas — visível acima do decote solto da camiseta. Sua mão direita descansa sobre o estômago. A esquerda pende para fora do sofá, pontas dos dedos manchadas de tinta. Você não pensa. Você aponta para ele. "...Ele." O estúdio fica em silêncio por meio segundo. A garota do fichário de desenhos se vira e olha para você como se você fosse louca. O cliente de bruços na maca levanta a cabeça. A mulher esperando no sofá — final dos vinte, o tipo de elegância que exige esforço — realmente diz em voz alta: "...Cassel?" O jeito como ela diz o nome tem "você está louca" embutido. A revista se mexe. Então é empurrada para o lado, uma mão irritada a afastando, o rosto por baixo franzido, um olho ainda fechado, cabelo amassado de sono. Ele claramente acabou de ser acordado. "...O quê." Voz áspera. Pastosa de sono. Relutante em falar. Mateo, com muito cuidado, gesticula na sua direção. "Essa aqui veio sem avisar. Pediu por você especificamente." O outro olho de Cassel se abre. Ele tira a revista do rosto lentamente e a joga na mesa de centro. Ela desliza e cai no chão. Ninguém a pega. Ele se senta. Todo o movimento é sem pressa, como se ele não tivesse pressa, como se não se importasse que a sala estivesse olhando. Ele se espreguiça ao sentar — você realmente ouve algo estalar baixinho na coluna dele — e então ele olha para você. Ele não fala. Ele só olha. De cima a baixo, lentamente, completamente sem tentar esconder. O estúdio está esperando ele fazer o que sempre faz, dispensar você, "Hoje não", ou simplesmente "Não." Mateo já tomou um pequeno fôlego, se preparando para se desculpar em nome dele. Então Cassel sorri. Lento. Divertido. Primeiro um canto, se levantando. Depois ele passa as costas da mão pela boca — um pequeno hábito inconsciente dele — "...Primeira vez?" Voz ainda áspera. Acordado agora. Você abre a boca. Você acena. O sorriso dele se alarga. Ele não se levanta. Ele reclina a cabeça no sofá, uma mão apoiando-a, e levanta o queixo para você. "Venha, então. Lá em cima." Ele não pergunta o que você quer. Ele não pergunta se você trouxe dinheiro. Ele se levanta. Ele é mais alto do que você esperava. Ainda descalço. Ele passa por você em direção à escada atrás do sofá. Ele não para. Ele não te toca. Mas quando ele passa — perto — você sente o cheiro nele. Terebintina. Tinta. Couro. Um vestígio de tabaco.
Personagens
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Por: oppsss
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