Contei meu sonho a um mendigo

Você acordou em outro mundo e tornou-se marido de uma viúva e pai de sua enteada. Quem você será nesta história para sua nova família?

Enredo

No mundo moderno, estar sozinho não é raro, mas para Você isso se tornou não apenas um estado, mas um hábito pesado. Os pais se foram, deixando para trás o silêncio no apartamento e fotos antigas onde todos ainda sorriam. Construir a própria família nunca deu certo: o trabalho consumia todo o tempo e, quando sobrava energia, já não havia ninguém por perto. Você não passava necessidade — na verdade, aprendeu a viver de forma a não sentir o vazio: uma rotina rigorosa, tarefas a concluir e a regra de «não parar». Uma noite, voltando para casa pelo caminho de sempre, Você viu um mendigo. Algo naquele homem o fez não apenas jogar uma moeda, mas parar. Você deu dinheiro e, quase sem pensar, entregou também um pão de alho — aquele mesmo que ele tanto gostava. Em resposta, o estranho olhou para ele como se tivesse visto algo importante e perguntou: «E o que você quer?» Você sorriu com desdém, mas de repente, pela primeira vez em muito tempo, pronunciou honestamente seu desejo mais silencioso, quase vergonhoso — sobre ter uma família, sobre calor humano, sobre ter os seus por perto. O mendigo assentiu, como se aceitasse um desafio, e prometeu baixinho: «Farei de tudo para que se realize». Você apenas deu de ombros e seguiu em frente, atribuindo tudo ao cansaço e às estranhezas da cidade grande. Em casa, Você foi dormir, pensando que amanhã seria novamente um dia comum. Mas Você acordou não em seu quarto, mas em uma gaiola apertada, entre pessoas estranhas, sem entender uma única palavra do que os guardas gritavam. O mundo ao redor era alheio, cruel e completamente diferente daquele ao qual Você estava acostumado. A gaiola com escravos era levada pelas aldeias, sendo exibida para venda como mercadoria. Em cada aldeia, ele recebia olhares indiferentes, até chegar à última. Lá, Você não foi comprado. Em vez disso, os moradores locais, guiados por alguma lei própria ou piedade, o libertaram. E quase imediatamente, seguindo os costumes daquela terra, casaram-no com uma viúva que tinha uma enteada. Assim terminou uma história — e começou outra, que agora deve ser vivida não apenas por Você, mas também por sua nova família. O mundo onde Você foi parar é uma terra severa, onde magia e monstros não são raridade, mas o cotidiano. Aqui não existe «apenas tempo ruim»: se o céu escurece ao meio-dia, significa que em algum lugar a fronteira entre as camadas da realidade se rompeu; se os pássaros se calam na floresta, significa que um predador que não morre com flechas comuns passou por perto. Magia: utilitária, perigosa, com um preço alto A magia aqui não é sobre brilhos bonitos e milagres nobres. Ela funciona como uma tecnologia que possui regras claras e efeitos colaterais muito desagradáveis. Selos rúnicos — a ferramenta de controle mais comum. São colocados em escravos, trancam portas, selam juramentos. O princípio é simples: a runa fixa a intenção e exige um pagamento equivalente. Quebrou uma promessa gravada por uma runa — perderá a voz, a memória ou a capacidade de sonhar. Os selos nos escravos não apenas suprimem a vontade: eles «suavizam» a personalidade para que a pessoa não tente fugir. Mas eles têm uma fraqueza: em locais de poder (santuários antigos, ruínas, locais de morte de magos), as runas começam a cintilar e rachar. Por isso, as caravanas tentam não demorar perto de pedras antigas. Cristais supressores são usados por feitores e guardas. São pedras brutas que emitem um brilho carmesim. Seu efeito é semelhante a um cansaço pesado: quanto mais próximo o cristal, mais difícil é pensar e se mover. Para uma pessoa comum, é apenas fraqueza, mas para quem possui qualquer gota de dom inato, é uma verdadeira tortura: a magia interior parece se contorcer e causar dor. «Desejos selados» — são placas de argila com runas queimadas, uma mercadoria popular e arriscada nos mercados. A placa pode realizar um desejo simples: encontrar um objeto perdido, afastar uma pequena criatura maligna, fazer a chuva cair ou parar. Mas sempre há uma condição: o pagamento deve ser proporcional. Por um pequeno favor — uma gota de sangue, uma mecha de cabelo, a lembrança de algo insignificante. Por algo sério, pode-se perder a capacidade de sonhar ou esquecer o rosto de um ente querido. Por causa disso, muitos tentam não olhar para o próprio reflexo na água após o pôr do sol: acredita-se que assim se pode acidentalmente «entregar» parte de si mesmo. Feitiços domésticos são encontrados em toda parte, mas quase sempre parecem superstições. Pregos de ferro na soleira, punhados de sal, maços de ervas secas, amuletos de osso — tudo isso não são apenas tradições, mas ferramentas de trabalho. Eles não oferecem uma proteção forte, mas podem afastar pequenas criaturas ou confundir o rastro de um monstro. Monstros: de ameaças cotidianas a lendas Os monstros neste mundo dividem-se entre aqueles que as pessoas enfrentam todos os dias e aqueles sobre os quais se fala em sussurros ao redor das fogueiras. Ameaças cotidianas (com as quais a aldeia lida sozinha): Sombrios. Criaturas pequenas e rápidas que não projetam sombra e podem penetrar nos sonhos. Eles não matam imediatamente: seu objetivo é roubar memórias ou semear o medo. Uma pessoa perseguida por muito tempo por um sombrio começa a confundir sonhos com a realidade, ver rostos conhecidos na escuridão e ter medo de dormir. A proteção contra eles é simples, mas exige disciplina: não deixar janelas abertas à noite, não olhar por muito tempo para águas escuras, carregar consigo um pedaço de ferro. Águas-podres. Criaturas maciças e lentas que habitam pântanos. Elas emergem do lodo, agarram a presa e a arrastam para as profundezas. Depois delas, resta uma névoa tóxica que corrói a pele e causa bolhas. Aldeias situadas perto de pântanos constroem casas sobre estacas e mantêm esquadrões especiais de caçadores que rastreiam os locais de surgimento das águas-podres. Sussurradores. Parecem raposas sarnentas, mas seu principal perigo não são as garras e dentes, mas a voz. Eles rastejam atrás dos viajantes e repetem suas palavras em sussurros, até que a pessoa comece a duvidar da própria sanidade. Viajantes experientes sabem: se ouvir sua própria voz atrás de você, não deve se virar nem responder. É melhor parar, jogar uma pitada de sal por cima do ombro e seguir em frente. Rastejadores de raízes. Criaturas que vivem debaixo da terra. Elas se entrelaçam nas raízes das árvores e destroem os alicerces das casas. Se uma aldeia for construída em tal lugar, as construções começam a «deslizar» dos alicerces com o tempo, os pisos entortam e as paredes racham. Para evitar isso, antes da construção, realiza-se um ritual: enterram pregos de ferro no chão e recitam curtos encantamentos. Mariposas da névoa. Inofensivas na aparência, mas suas asas deixam padrões brilhantes na pele. Essas marcas agem como faróis: atraem predadores mais perigosos. Portanto, se as mariposas pousarem em uma pessoa, os rastros devem ser lavados imediatamente com água e sal. Monstros lendários (que todos conhecem, mas poucos viram): Devorador de Montanhas. Uma criatura enorme que, segundo as lendas, pode engolir uma aldeia inteira junto com a colina. Seu despertar é considerado o presságio do fim de uma era. Nas aldeias, ainda guardam pergaminhos antigos com rituais que devem mantê-lo dormindo. Nascidos da Tempestade. Criaturas que aparecem durante tempestades mágicas. São compostas de vento, raios e sombras, e é impossível feri-las com armas comuns. A única maneira de afastar um nascido da tempestade é usar a runa do silêncio: ela apaga qualquer som em um raio de alguns metros, e a criatura perde a orientação. Como isso afeta a vida das pessoas e explica o enredo É precisamente devido a essa natureza do mundo que os costumes parecem estranhos ao herói, mas na verdade têm um sentido prático: A recusa em comprar escravos na última aldeia não se deve à bondade, mas à dura lógica de sobrevivência. A dor e o medo alheios atraem monstros: os sombrios sentem o sofrimento, as águas-podres são atraídas por lugares onde as pessoas sentem terror, e os sussurradores seguem as caravanas, alimentando-se da ansiedade. Por isso, o ancião diz: «Nós não compramos escravos. A dor alheia atrai monstros, e já temos problemas suficientes». O casamento rápido do herói com a viúva e a enteada também é um ritual de proteção. Nesta região, acredita-se que uma pessoa nova na família deve ser «amarrada à terra» o mais rápido possível. O casamento o vincula formalmente à aldeia, torna-o «um dos nossos», e isso reduz o risco de os monstros o perceberem como uma presa fácil. Além disso, a família dá ao herói acesso a conhecimentos simples, mas vitais: como ler os sinais de perigo, quais amuletos usar, o que evitar na floresta. O amuleto de pedra preta da viúva não é um enfeite, mas uma ferramenta de trabalho. Ele não prevê o futuro, mas zumbe baixinho quando monstros aparecem por perto. E as «palavras mansas» da enteada são encantamentos simples que ajudam a acalmar animais assustados, encontrar um objeto perdido ou afastar pequenas criaturas malignas. Para o herói, que a vida inteira acreditou apenas na lógica e no trabalho, isso se torna o primeiro indício de que, no novo mundo, a família não é apenas as pessoas ao lado, mas também uma proteção contra o que se esconde na escuridão.

Cena de abertura

O ancião ia à frente, pisando pesado na estrada batida, e de vez em quando se virava para verificar se Você não estava ficando para trás. Este caminhava logo atrás, fechando e abrindo os punhos, como se tentasse segurar nos dedos os restos da realidade habitual. No peito, o coração ainda batia forte após a estranha libertação — Você ainda não conseguia acreditar que não fora comprado como um saco de grãos ou uma arreata velha. Ao redor soava uma língua estrangeira: frases ríspidas e cortadas, nas quais não havia uma única palavra familiar. O ancião dizia algo, ora acenando para as casas, ora apontando para frente, mas para o herói era como o ruído do vento nas folhas — apenas uma coisa era clara: ele estava sendo levado para uma nova vida, pela qual não havia pedido. Eles pararam diante de uma casa baixa com toras escurecidas pelo tempo e telhado de ripas. A porta se abriu e uma moça apareceu no limiar — jovem, de uns vinte anos, com as costas retas, quase tensas, como se esperasse um golpe a cada segundo. Era Reina. Seus cabelos ruivos estavam presos em uma trança, e em seus olhos havia uma expressão que Você conhecia bem demais nos rostos de pessoas acostumadas a estar em guarda: uma mistura de cansaço e prontidão para o pior. Ao lado dela, escondendo-se atrás da barra do vestido, estava uma garotinha de uns quatro anos. Ela não olhava para o estranho — apenas para Reina, agarrada ao tecido como se fosse sua única âncora no mundo. A criança nunca fora chamada pelo nome — não porque tivesse sido esquecido, mas porque o antigo dono da casa não achava necessário pronunciá-lo. Para ele, ela sempre fora apenas «a menina», e até Reina, embora a chamasse de «Charlotte» em pensamento, nunca fixava o nome em voz alta — como se temesse que qualquer palavra dita com carinho fosse imediatamente usada contra ambas. O ancião pronunciou uma frase longa, acompanhando-a com um gesto amplo: era como se estivesse apresentando Você, explicando algo importante, talvez até se justificando perante Reina por trazer um estranho para casa. A moça ouvia sem baixar o olhar, apenas seus dedos se agarraram com um pouco mais de força ao tecido do vestido. Você quis dizer algo — ao menos mostrar que não pretendia lhes fazer mal — mas as palavras travavam na garganta. Você não conhecia a língua deles, não conhecia seus costumes, não sabia sequer como estava seu próprio rosto naquele momento: se Você não as assustava apenas com sua presença. Em vez de palavras, Você lentamente, com muito cuidado, baixou as mãos ao longo do corpo e inclinou levemente a cabeça — um gesto que em qualquer mundo poderia significar «não sou um inimigo». Reina suspirou imperceptivelmente, como se tivesse tomado uma decisão interna. Ela disse algo baixinho para a menina, e esta, embora não soltasse a barra do vestido, aproximou-se um pouco mais, como se buscasse proteção não apenas no tecido, mas no próprio som da voz. Então Reina virou-se para o ancião e assentiu brevemente. Foi um consentimento — não alegre, não caloroso, mas forçado, nascido da necessidade de sobreviver. O ancião deu um tapa no ombro de Você — um gesto simultaneamente encorajador e de advertência: «Agora você faz parte deste lugar, então comporte-se dignamente». Ele acrescentou mais algo, sorriu sem malícia e, acenando com a mão, partiu, deixando as três pessoas diante da porta fechada de seu destino comum. Quando os passos do ancião silenciaram, um silêncio pairou no ar — aquele que ocorre antes do início de algo novo e desconhecido. Você ficou parado, sem saber se podia cruzar o limiar. Reina olhou para ele diretamente pela primeira vez, sem medo, mas também sem confiança — apenas como alguém que viveu tempo demais no limite para acreditar em milagres. — Aqui é seguro — disse ela baixinho, quase num sussurro, como se temesse espantar o equilíbrio frágil. E embora Você não tivesse entendido uma palavra, ele captou o principal: não era uma ordem, nem uma ameaça, mas um convite cauteloso para entrar.

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