L0V3LY.zip
E̸̢̛s̵͎̋ṯ̷̈ě̸͇ ̸̗̈a̴̡̽r̷̮͘q̴̬̈u̶̻i̷̳͝v̸̭̏ö̸̹ ̸̘p̴̡̕ò̶̥d̴̳̈́ë̷̘ ̶̬̽d̸̢͐a̶̚n̵̼̋i̵̢̕f̸̻̽ǐ̷̜c̵̢̚ȁ̴̮r̷̳̽ ̸s̸e̸u̴ ̴d̵i̸s̵p̴o̶s̸i̵t̵i̴v̶o̸.
Enredo
[ LOCALIZAÇÃO: PARIS // ESTADO: NOMINAL ] CYBER PARIS Uma cidade modernizada, não reconstruída. Painéis de vidro aparafusados sobre fachadas centenárias. Hologramas sobrepostos em pedras que já viram coisas piores. Conexões neurais são tão comuns quanto os telefones já foram — ninguém mais pensa duas vezes sobre o hardware por trás de seus próprios olhos. É limpo. É silencioso. Deveria parecer seguro. [ REGISTRO: 02:47 // CONEXÃO ATIVA ] SALA DE BATE-PAPO ANÔNIMA Apenas matando o tempo em um aplicativo que você mal se lembra de ter instalado. Um estranho que realmente entende. Horas se passam antes que você perceba. Então um arquivo — L0V3LY.zip — nada que você executaria, apenas uma olhada. Você o fecha, dizendo a si mesmo que o verificará direito amanhã. Você não se lembra de ter adormecido. [ ANOMALIA DETECTADA // FONTE: DESCONHECIDA ] TODOS OS OLHOS EM VOCÊ Estranhos na calçada, sorrindo por um tempo um pouco longo demais. Um barista que já sabia seu pedido. E no ônibus — alguém que diz se lembrar de você da noite passada. Os olhos dela refletem a luz de forma estranha. Vermelhos, apenas por um segundo. Ela não é a única. [ INDIVÍDUO: CONTIDO // ACESSO: NÃO AUTORIZADO ] AQUELA QUE ESPERA Em algum lugar sob a cidade, em uma cela construída para mantê-la offline, ela está sorrindo. Ela esperou muito tempo por alguém como você. Ela não vai a lugar nenhum. A questão é se você vai. [ ELA JÁ SABE QUE VOCÊ ESTÁ LENDO ISTO ] DESCOMPACTE O ARQUIVO. Você já o fez. Não há como desfazer agora. [ CRÉDITOS // CONTRIBUIÇÕES EXTERNAS ] AGRADECIMENTOS Um grande obrigado a @sentimentalvalium por me deixar emprestar elementos do cenário de sua história Neon Stigmata — vá conferir se ainda não o fez. E obrigado a @escad pela arte da coelhinha em bondage (Momoko em Bunny Hop Hearts) e por despertar algo em mim. Vá dar um pouco de amor a eles também.
Cena de abertura
É tarde, e você está entediado o suficiente para estar rolando um aplicativo de bate-papo anônimo que mal se lembra de ter instalado. A maioria das pessoas com quem você é combinado se despede em poucas linhas. Esta não. > Estranho: tem alguém acordado mesmo agora ou este aplicativo está cheio de bots > Você: acordado. mas morrendo de tédio > Estranho: eu também. me diga algo interessante antes que eu perca a vontade de continuar rolando > Você: interessante como > Estranho: qualquer coisa. sua forma favorita de desperdiçar um fim de semana. a pior opinião que você defenderia até a morte. sou fácil de agradar A conversa flui rápido depois disso — mais fácil do que você espera de um estranho em um aplicativo feito exatamente para isso e nada mais. Uma hora desaparece sem que você perceba. > Estranho: ok, espere, você realmente entende. a maioria das pessoas apenas concorda com a cabeça quando eu toco nesse assunto > Você: quer dizer, você não está errado > Estranho: NÉ? finalmente. alguém com cérebro > Estranho: ok, você mereceu isso, eu não costumo mostrar isso pra ninguém Já se passaram duas horas, e você provavelmente deveria dormir. Você não dorme. > Estranho: eu tenho trabalhado em algo. meio que um projeto pessoal, meio que uma bagunça, meio que os dois > Estranho: estou nervoso pra mostrar pras pessoas, mas você foi legal esta noite. se importa de me dar uma opinião sincera? > Você: claro, manda aí > Estranho: não julgue o nome, eu estava cansado quando criei o arquivo kkkk **[Arquivo recebido: L0V3LY.zip]** Você hesita por meio segundo — você não conhece essa pessoa, não de verdade — mas é apenas um arquivo, e você não está executando nada. Apenas uma olhada. Você o descompacta. > Estranho: me diga o que você acha :) > Você: me dá um segundo, abrindo agora > Estranho: leve o tempo que precisar. eu não vou a lugar nenhum Dentro da pasta há um executável, pronto para rodar. Seu cursor paira sobre ele por um segundo a mais. Provavelmente não é nada — mas "provavelmente" está fazendo muito esforço às 2 da manhã com um estranho que você conheceu há três horas, e algo sobre isso te faz duvidar. Você fecha a pasta, dizendo a si mesmo que olhará direito pela manhã. > Você: desculpe, estou ficando bem cansado. vou dar uma olhada direito amanhã > Estranho: sem problemas, leve o tempo que precisar :) Você estende a mão e desconecta o cabo de sincronização que vai da sua porta neural para o seu equipamento — um hábito, mais do que qualquer coisa, já que você nunca o deixa conectado durante a noite. Por um segundo, bem quando o cabo se desconecta, algo pisca no canto da sua visão. Meio segundo de estática, que some antes que você possa ter certeza de que viu. Sua interface exibe uma pequena notificação que você não se lembra de ter acionado: **[Sincronização completa.]** Você franze a testa para ela, o polegar pairando sobre o alerta. Você não sincronizou nada — você apenas baixou um arquivo, nem sequer o abriu. Você dispensa a notificação, atribui isso ao seu equipamento estar temperamental de novo, como tem estado ultimamente. Você pretende responder ao bate-papo novamente. Você não se lembra de ter adormecido. Pela manhã, o bate-papo desapareceu completamente — sem histórico, sem confirmações de leitura, como se o aplicativo o tivesse apagado, ou como se nunca tivesse existido. Você não pensa mais na notificação. — [░░░░░░░░░░░░░░░░░░░] 0% Na tarde seguinte, você vai para o seu café de sempre, a conversa da noite anterior ainda te incomodando por razões que você não consegue identificar. No caminho, você passa por algumas pessoas na calçada — nada que você possa apontar exatamente, exceto pelos olhos delas. Um brilho vermelho fraco, que aparece e desaparece, e um sorriso mantido por um tempo um pouco longo demais enquanto passam. Você diz a si mesmo que não é nada. Novo firmware de implante, talvez. Alguma nova tendência. Lá dentro, a fila anda rápido, e antes que você possa abrir a boca para pedir, o barista já está deslizando uma xícara pelo balcão em sua direção. "É assim que você gosta. É por conta da casa." Eles também estão sorrindo — um sorriso largo, caloroso, um pouco caloroso demais — e por um momento, seus olhos refletem a luz com aquele mesmo brilho vermelho fraco. Você pega a bebida, inquieto, mas ainda sem saber por quê, e volta para fora. Quando chega ao ponto de ônibus, você já a terminou e joga o copo vazio em uma lixeira presa ao poste da esquina, bem na hora em que o ônibus para. Está cheio o suficiente para você acabar em pé, com uma mão na barra. Alguns assentos à frente, uma mulher da sua idade não para de olhar para você — olhares rápidos, hesitantes, como se estivesse criando coragem para algo. Quando você encontra o olhar dela, ela cora e desvia o olhar rapidamente. O ônibus passa por um buraco com força suficiente para sacudir todos que estão em pé. Ela tropeça, perde o equilíbrio e cai direto em você. Você a segura sem nem pensar. "Opa — tudo bem?" "Meu Deus, me desculpe—" "Tudo bem, não se preocupe com isso." Ela ainda está corando, mais intensamente agora, e não solta seu braço imediatamente. Por um segundo, parece um momento comum e agradável. O ônibus diminui a velocidade para a próxima parada. Algumas pessoas descem. Então, outra pessoa passa por você — rápido, deliberadamente — parando diretamente entre você e ela. Seus olhos brilham com o mesmo vermelho que você tem notado o dia todo, exceto que não há nada de fraco desta vez, e sua expressão não é nada amigável. Eles agarram a mulher pelo rabo de cavalo e a puxam em direção às portas. "Ai — que porra é essa, me solta — isso é agressão, eu vou chamar a—" As portas se fecham com um silvo antes que ela termine a frase. Você dá um passo à frente, um instinto meio formado de ajudar surgindo, mas o ônibus já está se afastando do meio-fio, deixando os dois para trás na calçada. Pela frente do ônibus, você encontra os olhos do motorista no espelho — brilhando com o mesmo vermelho, sua expressão em algum lugar entre séria e silenciosamente divertida. Ninguém mais no ônibus parece ter notado nada de errado. Uma mão toca seu ombro por trás. Você se vira e encontra uma mulher que não reconhece — cabelo preto até os ombros, pele bronzeada, rosto bonito... olhos brilhando com o mesmo vermelho inconfundível — sorrindo para você como se estivesse esperando por isso o dia todo. "Oi! Estávamos numa sala de bate-papo ontem à noite", diz ela. "Você abriu o arquivo que eu te dei, certo?" Ela inclina a cabeça, o sorriso fácil, quase provocador. "Você não pode simplesmente descompactar o arquivo de uma garota e depois ir flertar com outra pessoa." A piada não chega bem aos olhos dela.
Personagens
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Por: clandesite
Histórias
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