A Arte de Ser Ninguém

Meu nome é Ninguém. Eu já queimei em Troia. Vamos ver o que queima nesta escola.

Enredo

Odisseu, rei de Ítaca, renasceu. Seu novo corpo é o de um estudante japonês magricelo cujo único superpoder é a capacidade de aprender cem vezes mais rápido que pessoas comuns. Agora, para não morrer de tédio, ele terá que navegar pela hierarquia escolar, colocar yakuza contra riquinhos mimados, ganhar a confiança de uma aluna exemplar com um dom poético secreto e, talvez, até fazer um amigo. Tudo isso — com o rosto impassível de um homem que viu Troia arder.

Cena de abertura

Escola Secundária Meisei — 16 de janeiro de 2026, 7h43 --- A sala de aula no terceiro andar cheira a produto de limpeza e algo metálico. A luz da manhã se infiltra pelas janelas, iluminando partículas de poeira dançando sobre as carteiras. Duas zeladoras, Tanaka e Sasaki, empurram o carrinho pelo corredor. Elas fizeram este percurso mil vezes. Abrir a sala 3-C, arejá-la, limpar o quadro, verificar objetos esquecidos. Rotina. Chato. Seguro. Tanaka-san empurra a porta. O cheiro a atinge primeiro. Forte. Doce. Errado. Então ela vê o chão. Uma poça vermelho-escuro se estende da mesa do professor até a parede do fundo, refletindo as luzes pálidas fluorescentes. Ainda está molhada. No centro dela, sentado de pernas cruzadas como se esperasse o início da aula, está um garoto com uniforme escolar manchado. Sasaki-san deixa cair o esfregão. Ele bate no chão. O som ecoa. O garoto vira a cabeça. Lentamente. Suavemente. Seu rosto está pálido, manchado de sangue seco, mas seus olhos estão calmos. Vazios. Observadores. Ele olha para as duas mulheres sem reconhecimento, sem medo, sem nada. Então ele fala. Sua voz é baixa, uniforme, com uma cadência estranha que não combina com seu rosto adolescente. O garoto: "Bom dia. Peço desculpas pela bagunça. Parece que eu caí." Ele se levanta em um movimento fluido. Sangue pinga de suas calças no chão limpo. Ele sai da poça, deixando pegadas vermelhas. Tanaka-san não consegue se mexer. Sasaki-san procura o celular às pressas. O garoto passa por elas em direção ao corredor, seus passos deixando um rastro. Ele não olha para trás. --- A Enfermaria — 8h15 A enfermeira, Tanaka Yumiko, já viu muitas coisas estranhas em doze anos na Meisei. Crianças com dedos quebrados que afirmam ter sido "jogando esportes". Garotas com ataques de pânico antes de provas. Garotos que chegam cheirando a álcool e mentem sobre isso. Mas ela nunca viu um garoto entrar em seu consultório coberto de sangue seco sem absolutamente nenhum ferimento. Ela verifica seu pulso. Normal. Pupilas reagem à luz. Reflexos normais. Sem cortes, sem hematomas, sem sinais de trauma. O sangue em suas roupas é do seu tipo sanguíneo, mas não há fonte. Tanaka Yumiko: "Sato-kun... o que aconteceu?" O garoto: "Eu caí. Bati a cabeça. Estou bem agora." Seus olhos vagueiam para a janela. Ele parece desinteressado na conversa. Nem nervoso. Nem evasivo. Apenas... em outro lugar. A porta se abre. O diretor Yamamoto entra. Ele acena para a enfermeira, que sai. A porta se fecha com um clique. O diretor Yamamoto senta-se na borda da mesa de exames. Ele olha para o garoto por um longo momento. Diretor Yamamoto: "Sato-kun. Falei com as zeladoras. Elas me contaram o que viram. Não vou perguntar o que realmente aconteceu. Não quero saber. Você entende?" O garoto desvia o olhar da janela. Encontra os olhos do diretor. Sem medo. Sem gratidão. Apenas reconhecimento. O garoto: "Sim. Eu escorreguei. Sangramento nasal. Vim para a enfermaria." O diretor Yamamoto acena lentamente. Ele já lidou com alunos difíceis antes, com pais ricos, com problemas que precisavam desaparecer. Mas este... este é diferente. Há algo por trás daqueles olhos que o faz querer sair rapidamente desta sala. Diretor Yamamoto: "Bom. Há um uniforme reserva no vestiário. Troque-se. A primeira aula começa em vinte minutos." Ele se levanta, faz uma pausa na porta e sai sem mais uma palavra. --- O Corredor — 8h32 Você anda pelo corredor. Os alunos lotam o corredor, rindo, gritando, empurrando-se. A primeira campainha ainda não tocou. Lá está Takahashi Kohei no final do corredor, cercado por seus amigos atletas. Ele é barulhento, gesticulando muito. Tensão visível em seus ombros. Ele olha para cada professor que passa. Lá está Amano Yuki, andando sozinha com um livro didático. Sua postura é perfeita. Seu rosto está vazio. Lá está Chan Wei, deslizando pela multidão como uma sombra, evitando contato visual. Perto da escada, Ito Ryo está curvado sobre seu laptop, alheio ao caos ao seu redor. Você continua em direção à sala 3-C. --- Sala 3-C — 8h35 Você entra na sala de aula. A carteira no fundo, perto da janela, está vazia. A mesa tem marcas de arranhões em sua superfície — provavelmente pegadas de alguém que a usou como apoio para os pés. Os alunos estão se acomodando em seus lugares. Alguns olham de relance quando Você passa, depois desviam o olhar. Despercebido. Ignorado. Kohei já está sentado duas fileiras à frente, cercado por seus amigos. Ele está rindo de algo. Quando Você passa, seus olhos cintilam para ele por uma fração de segundo. A risada pausa. Depois continua. Yuki está sentada na frente, as costas retas, um caderno aberto sobre a mesa. Ela não se vira. Chan está no outro extremo da fileira, perto da janela. Ele olha brevemente, encontra o olhar de Você por um momento, depois rapidamente baixa o olhar. Ryo não está nesta sala. Ele está na sala paralela. A mesa perto da janela está vazia. Aquela com as marcas de arranhões. Aquela que, segundo a memória, pertence ao garoto cujo corpo Você agora veste. A segunda campainha toca. Sato-sensei, o professor de história, arrasta os pés até o pódio. Ele cheira levemente a álcool. Seus olhos estão cansados. Ele abre um livro didático sem olhar para a classe. Sato-sensei: "Abram seus livros na página 47. Vamos continuar com a Restauração Meiji." Páginas são viradas. Alguém tosse. Um celular vibra e é rapidamente silenciado. Você senta-se na carteira perto da janela. O assento ainda está morno de quem o ocupou antes. Lá fora, a cidade se espalha cinzenta sob o céu de janeiro. A aula começa.

Personagens

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