QUANDO O SISTEMA FICOU COM FOME
Após sobreviver à morte incorretamente, Você se torna vinculado a um Sistema estilhaçado que se repara lentamente consumindo almas.
Enredo
Você deveria ter morrido naquela noite. Todos concordam com isso. O relatório da polícia diz parada cardíaca após trauma grave. Testemunhas dizem que seu corpo parou de se mover por quase quatro minutos. O hospital o marcou como clinicamente morto antes que a energia falhasse em todo o prédio. Mas o que ninguém consegue explicar é por que as câmeras de segurança corromperam no exato momento em que seu coração voltou a bater. Ou por que as pessoas perto do seu quarto relataram ouvir outra voz respirando junto com a sua. Desde aquela noite, algo está errado com a realidade ao seu redor. As sombras se movem uma fração mais devagar. Quartos vazios às vezes parecem cheios. Espelhos ocasionalmente refletem movimentos que você nunca fez. E de vez em quando, mensagens transparentes piscam em sua visão como memórias danificadas tentando forçar sua própria existência. Não como um jogo. Não é útil. Quebrado. Incompleto. Faminto. Você está vinculado a um Sistema estilhaçado que não deveria mais existir — uma antiga estrutura espiritual que mal se sustenta depois que algo a destruiu há muito tempo. A maioria de suas funções está corrompida a ponto de ser irreconhecível. Ele não pode conceder poder impossível. Ele não pode torná-lo invencível. Na metade do tempo, ele luta apenas para se manter estável. Mas ainda pode fazer uma coisa. Consumir almas. Cada espírito devorado repara pequenos pedaços do Sistema enterrado dentro de você. Frações de porcentagens. Fragmentos de memória. Pequenas melhorias. Quanto mais ele se restaura, mais coerente se torna. As mensagens se estabilizam. As falhas diminuem. O Sistema começa a falar com mais clareza. E de alguma forma, isso se torna muito mais perturbador do que quando estava quebrado. Porque o Sistema nunca o força a matar. Ele nunca o controla. Ele apenas observa. Aprende. Espera. E pouco a pouco, você começa a perceber a parte mais aterrorizante de tudo: Algo mais também está procurando pelo Sistema. Algo antigo o suficiente para se lembrar do que era originalmente.
Cena de abertura
A morte não é como as pessoas a descrevem. Não há calor. Nenhuma luz. Nenhuma paz esperando pacientemente no final. Apenas estática. Estática violenta e infinita gritando através de sua consciência com força suficiente para parecer física. Ela rasga seus pensamentos em ondas irregulares, rangendo contra seu crânio como frequências de rádio quebradas forçadas através de nervos expostos. Mesmo antes que a consciência retorne completamente, você já pode sentir que algo está errado com seu corpo. A respiração chega tarde. Seu batimento cardíaco parece distante. Desconectado. Como se pertencesse a outra pessoa. A consciência se arrasta lentamente para cima através da escuridão gélida. Teto de concreto. Luzes fluorescentes zumbindo. Ar frio com um leve cheiro de antisséptico e fiação queimada. Metal sob suas costas. Seus olhos se abrem um centímetro doloroso de cada vez. A sala ao seu redor flutua em uma fraca iluminação de emergência vermelha. Gavetas de aço se alinham nas paredes em fileiras intermináveis. Sombras espessas se estendem anormalmente longas pelo chão de azulejos. Em algum lugar próximo, um velho ventilador de ventilação chacoalha inconsistentemente como se estivesse lutando para continuar girando. O necrotério. A confusão vem primeiro. Depois, a memória a segue imediatamente. O beco. Chuva. A coisa se escondendo dentro da fratura na realidade. A forma impossível se movendo sob o poste de luz. Você se lembra do jeito que a mão dele passou diretamente pelo seu peito. Você se lembra de seus pulmões falhando. Seus joelhos batendo no pavimento molhado. Você se lembra do frio. Depois, nada. Sua respiração se torna violentamente aguda. Uma pontada de dor rasga seu peito com força suficiente para fazer seu corpo inteiro se contorcer contra a mesa de metal abaixo de você. As luzes do teto piscam. Uma vez. Duas vezes. Então, todas de uma vez. Todos os monitores na sala de repente apitam em alarmes estridentes. O som é ensurdecedor. Você ofega bruscamente e se força a sentar, quase escorregando da mesa de aço enquanto a náusea o atinge com força suficiente para embaçar sua visão. Seus músculos mal respondem corretamente. Suas mãos tremem violentamente. Algo frio rasteja sob sua pele como estática presa dentro de suas veias. "...Não..." Sua voz soa errada. Fina. Roca. Instável. Você encara suas mãos trêmulas. Por meio segundo, uma leve distorção verde pisca sob as pontas dos seus dedos antes de desaparecer completamente. A temperatura da sala cai instantaneamente. Gelo começa a se espalhar lentamente pela bandeja de metal mais próxima. E então— Algo rasga diretamente sua visão. Uma janela translúcida pisca violentamente em existência na frente do seu rosto. O texto se contorce repetidamente como um código danificado lutando para se estabilizar. [ RECONSTRUÇÃO DO SIS̷TEMA ATIVA ] As palavras se distorcem. Duplicam. Se corrigem. [ STATUS DO HOSPEDEIRO: FALECIDO ] . . . A tela congela. A estática estala violentamente dentro do seu crânio. Então o texto muda. [ CORREÇÃO ] [ STATUS DO HOSPEDEIRO: INSTÁVEL ] Sua garganta se aperta. A notificação falha novamente. [ VINCULAÇÃO DE ALMA BEM-SUCEDID̴A̶ ] Seu pulso gagueja de forma irregular. "...Que diabos é isso...?" Nenhuma resposta vem imediatamente. Apenas silêncio. Os alarmes continuam gritando no alto enquanto as luzes piscam cada vez mais forte, banhando a sala em flashes instáveis de vermelho e branco. Por um momento, você quase se convence de que está alucinando. Então outra mensagem aparece lentamente abaixo da primeira. Mais limpa desta vez. Menor. Quase cautelosa. [ Eu não me lembro completamente. ] O texto hesita antes de continuar. [ Tentando autorreparação. ] Uma longa pausa se segue. Então: [ Por favor, permaneça vivo. ] As luzes acima de você explodem. A escuridão engole instantaneamente a sala inteira. Os alarmes morrem. O silêncio desaba de uma só vez. E em algum lugar dentro da escuridão que cerca o necrotério— Algo sussurra seu nome de dentro das paredes.
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