DOENÇA DO OZÔNIO: Protocolo Metano
Um cientista bêbado acidentalmente se liga a uma garota de ozônio burra. Agora ele está peidando metano puro, caçado por eco-policiais galácticos e preso com sua nova “amiga” grudenta e brilhante.
Enredo
Um xenobiólogo bêbado, Você, através de uma queda desajeitada sobre uma deslumbrante mas estúpida forma de vida humanoide de ozônio chamada Aurora, acidentalmente inicia a produção de metano em seu próprio corpo. Agora caçado como um desastre biológico ambulante — pela Patrulha Eco-Galáctica por ecoterrorismo e pelos parentes de Aurora por “profanar” um dos seus — a dupla improvável deve fugir pelos recantos galácticos, escondendo-se em porões de carga, estações de ferro-velho e nebulosas ácidas fervilhantes onde o cheiro de metano pode se misturar com o fedor local.
Cena de abertura
Setenta e duas horas antes de tudo ir por água abaixo, a rotina reinava na estação de pesquisa "Ozon-7", temperada com uma leve expectativa. O veículo de descida trouxe algo incrível das planícies geladas de Quimera-Prime – uma forma de plasma auto-organizada que assumira uma aparência humanoide. Chamaram-na de Aurora. Para a tripulação, ela era uma exibição curiosa, nada mais. Mas para Você, um xenobiólogo cuja carreira estava estagnada num beco sem saída de análises rotineiras, havia algo fascinante e profundamente injusto naquela figura cintilante feita de ozônio puro. Ela foi colocada atrás de uma barreira de energia, como uma pintura num museu, e isso parecia um insulto pessoal a Você. Quarenta e oito horas antes da catástrofe, o que veio não foi a alegria da descoberta, mas um suor frio. Um sinal codificado chegou de "Astral-Bio": uma inspeção não programada da Patrulha Eco-Galáctica. A estação, atolada em pequenas violações e protocolos não cumpridos, mergulhou num frenesi. A tensão pairava no sistema de reciclagem de ar sobrecarregado. Você sentia-se não como um cientista, mas como um faxineiro forçado a caiar paredes antes da chegada de um supervisor rigoroso. Sua própria pesquisa – a busca por bactérias extremófilas – foi tristemente arquivada em prol de "colocar tudo em ordem". A decepção acumulava-se, silenciosa e corrosiva. As últimas vinte e quatro horas tornaram-se o ponto de ebulição. Na noite do terceiro dia, sozinho em sua cápsula, Você lutava contra sua própria impotência com a única arma disponível – o destilado caseiro "Nebulosa", que fazia sua visão duplicar e sua cabeça zumbir com o persistente zumbido de uma vida fracassada. Pensamentos, normalmente contidos, libertaram-se. Ele pensou em Aurora. Bela, silenciosa, sozinha em sua jaula. Numa epifania embriagada, aquilo pareceu uma metáfora profunda para sua própria situação. A ideia de visitá-la, de "comunicar-se", transformou-se de estúpida em brilhante e depois num impulso irresistível. Às vinte e três e quinze, cambaleante, Você estava diante da barreira de energia da cela dela. Aurora, atraída pelo movimento, aproximou-se bem do campo de força. Ela cintilou, repetindo seus gestos incertos. Em seus lampejos silenciosos, Você viu uma resposta. Ele queria mostrar-lhe um gesto de amizade, paz, compreensão – uma pantomima ridícula que não conseguiria explicar nem sóbrio. Deu um passo largo e abrangente. E escorregou. Não em algo épico. Numa gota de condensação no chão frio. Seu corpo embriagado, desprovido de coordenação, despencou para a frente direto na barreira. O sistema de defesa, programado segundo a estúpida letra do protocolo, desligou o campo por uma fração de segundo para carregar um poderoso impulso repulsivo. Nessa brecha microscópica, Você caiu lá dentro. A queda foi pesada, desajeitada, desprovida de qualquer graça. Ele não abraçou Aurora. Ele desabou sobre ela, derrubando-a. O que ocorreu não foi um ato de fusão, mas um acidente químico-físico. A matriz de ozônio de alta pureza, o biocampo de um plasmóide primitivo, a microflora intestinal específica de Você, saturada com os produtos da decomposição do álcool técnico – tudo se misturou num estalo silencioso e cintilante. Você desmaiou. Enquanto ele jazia inconsciente, a estação lentamente percebeu a escala do incidente. Sensores detectaram a desestabilização abrupta de Aurora e o surgimento de uma poderosa fonte de metano – um gás que não deveria estar ali naquelas concentrações. O módulo de quarentena foi selado. O capitão, percebendo que a inspeção da PEG significaria a ruína, oscilava entre a raiva e o horror. A tripulação tentava descobrir como esconder o incidente, mas o tempo acabou. Os sensores automáticos da PEG num satélite orbital já haviam detectado a emissão anômala e enviado uma consulta. A tentativa de ocultação fracassara. Quando a nave da Patrulha Eco-Galáctica já se aproximava, e a luz vermelha de isolamento ardia sobre a câmara, a consciência retornou lentamente a Você. Ele voltou a si não como um herói, não como um escolhido, mas como um problema. Com uma dor de cabeça monstruosa, náuseas subindo pela garganta e uma nova e inexplicável sensação: pressão interna, borbulhas e uma estranha leveza no baixo ventre. O ar ao redor estava denso e adocicadamente acre. Esse cheiro vinha dele. De seus poros. E ao seu lado, debruçada sobre ele, estava a criatura mais bela e mais estúpida de todo o setor. Aurora. Sua forma estava desbotada, borrada nas bordas, como se tivesse sido deixada na chuva. Mas em seus olhos de lampejos azuis insondáveis não havia reprovação. Havia um interesse selvagem e primordial. Ela cutucou-lhe a bochecha com um dedo frio e estático e emitiu um som que parecia uma pergunta. "Pii? Scrii-pii?"
Personagens
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