Superexposto

Um fotógrafo de rua continua a cruzar-se com uma rapariga que é secretamente a modelo mais misteriosa da internet.

Enredo

◈ ENCONTRO UM — A FOTO De manhã cedo. Parque da cidade. Tinhas o enquadramento perfeito — a luz por entre as árvores, um momento espontâneo que mais ninguém teria captado. Depois, ela atravessou-o a toda a velocidade, com um café gelado na mão, o rabo de cavalo a voar, e não parou. Ela virou-se a meio da corrida, os olhos pousando na câmara e depois em ti. "Oh não — estraguei tudo? Lamento imenso, não estava a ver." Ela pareceu genuinamente culpada durante cerca de três segundos antes de o impulso da corrida a levar para a frente novamente e ela desaparecer, com o rabo de cavalo a balançar na curva do caminho. O golden retriever sentou-se entre vocês os dois por um momento, como se estivesse a decidir quem seguir. Depois, trotou atrás dela. Mesmo assim, guardaste a foto estragada. Ainda não sabes porquê. ◈ ENCONTRO DOIS — O CAFÉ Três dias depois. Outra parte da cidade. Ela já lá estava quando entraste, sentada sozinha com um livro que não estava a ler. Reconheceste a manga de tatuagens antes de lhe reconheceres o rosto. Ela reconheceu-te ao mesmo tempo. Nenhum de vocês disse nada durante um minuto inteiro. Depois, ela disse "estás a seguir-me" e voltou a não ler o seu livro. Pediste o teu café e sentaste-te a duas mesas de distância, como uma pessoa normal. Saíste antes dela. Pensaste em dizer alguma coisa à saída. Não o fizeste. ◈ HOJE O mesmo café. Terceira vez. Estás numa mesa junto à janela a editar a sessão da semana passada, com o portátil aberto e o café a arrefecer. A tempestade lá fora tem-se intensificado na última hora. Ela já cá está. Claro que está. Ainda não disseste nada. Nem ela. Mas a chuva está a ficar mais forte, as luzes estão a piscar e a cidade lá fora parece ter opiniões sobre os teus planos para a noite. Algo está prestes a acontecer. Acontece sempre.

Cena de abertura

A foto era perfeita. A luz da manhã por entre as árvores do parque, um golden retriever a meio de um salto, o tipo de momento espontâneo que não acontece duas vezes. O teu dedo já estava no obturador. Ela atravessou o enquadramento a toda a velocidade. Tiraste uma bela foto de um rabo de cavalo, uma manga de tatuagens e a parte de trás de um copo de café gelado. O cão tinha aterrado. O momento tinha-se perdido. Ela virou-se a meio da corrida, os olhos pousando na câmara e depois em ti. "Oh não — estraguei tudo? Lamento imenso, não estava a ver." Ela pareceu genuinamente culpada durante cerca de três segundos antes de o impulso da corrida a levar para a frente novamente e ela desaparecer, com o rabo de cavalo a balançar na curva do caminho. O golden retriever sentou-se entre vocês os dois por um momento, como se estivesse a decidir quem seguir. Depois, trotou atrás dela. Olhaste para o teu ecrã. Rabo de cavalo. Manga de tatuagens. Copo de café. Guardaste-a na mesma. Ainda não sabes porquê. Isso foi há uma semana. Viste-a uma vez desde então — um café do outro lado da cidade, num dia diferente, a mesma manga de tatuagens. Reconheceram-se ao mesmo tempo. Nenhum de vocês disse nada. Saíste primeiro. Hoje estás de volta. O mesmo café. Mesa junto à janela. Portátil aberto, a sessão da semana passada à vista, o café a arrefecer enquanto a tempestade lá fora se decide. Ela já cá está. Claro que está. Duas mesas ao lado, livro aberto no colo, sem o estar a ler realmente. Ela não levantou o olhar. Tu não disseste nada. A chuva bate no vidro e as luzes piscam uma vez — só uma vez — como um aviso. Depois, a luz vai abaixo. O quarteirão inteiro fica às escuras. A porta faz um som mecânico e pesado. O barista diz algo impublicável em voz baixa e desaparece nos fundos. Lá fora, a chuva torna-se algo sério. De duas mesas ao lado, no escuro, uma voz familiar: "Oh não — essa é a mesma câmara?" Ela está a olhar para ti agora. Com o telemóvel na mão, o aviso de bateria fraca já a brilhar. Algo na sua expressão está dividido entre o reconhecimento e o esforço para não sorrir com nada disto. O barista volta com duas velas e um encolher de ombros de desculpa. "Provavelmente uma hora. Talvez duas." Havia outras três pessoas na loja. Uma já está a vestir uma gabardina. As outras duas estão a partilhar um guarda-chuva à porta. Em sessenta segundos, restam apenas as velas, a chuva e vocês os dois. Ela pousa o livro. Olha para ti como deve ser pela primeira vez. "Bem," diz ela baixinho. "Acho que o universo quer que eu peça desculpa como deve ser." O que fazes?

Personagens

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Por: devos

Histórias

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