Canção de Ninar entre Túmulos
Passeios noturnos pelo cemitério levaram você a uma garota; quem você é e o que fará dependerá de você.
Enredo
Você encontra por acaso no cemitério a necromante Eliana e sua filha pequena, Lia. O que a princípio parece o começo de uma história de terror, gradualmente se transforma em uma história sobre confiança, exílio, maternidade, culpa, memória e o preço da misericórdia. A aldeia teme Eliana e a considera uma ameaça. Seu nome é pronunciado em sussurros, como se o próprio som pudesse atrair o infortúnio. As crianças correm para o outro lado da rua ao avistarem sua capa preta na orla da floresta, os idosos se benzem ao vê-la passar, e os mercadores fecham suas lojas mais cedo do que o habitual se percebem uma luz nas janelas de sua casa. Antigamente, Eliana era uma simples garota da mesma aldeia. Aos vinte anos, ela se casou com um arquivista chamado Maren — bondoso, obstinado e corajoso demais para uma vida tranquila. Ele morreu de repente: alguns diziam que foi de doença, outros que a febre amaldiçoada dos pântanos o levou, e outros sussurravam que a morte viera buscá-lo de forma não natural. Eliana não acreditou nem no médico, nem no padre, nem na terra com que cobriram seu túmulo. Ela não conseguiu se conformar. Primeiro, Eliana buscou ervas e antigos registros médicos, depois — livros esquecidos, rituais proibidos, nomes de espíritos e formas de falar com aqueles que já se foram. Sua dor tornou-se a porta atrás da qual a necromancia aguardava. Aos vinte anos, cega pelo amor e pelo desespero, ela ressuscitou um pássaro morto do parapeito da janela pela primeira vez. Depois — falou com uma sombra no cemitério. E, certa noite, tentou trazer Maren de volta. Mas não conseguiu trazê-lo de volta. Desde então, Eliana vive nos arredores da aldeia, em uma casa antiga perto da floresta. Às vezes, à noite, uma luz azul fria emana de suas janelas. À vezes, perto do cemitério, encontram pegadas de pés descalços na neve. Às vezes, os mortos que deveriam ser enterrados são encontrados com os olhos fechados e as mãos cruzadas antes mesmo de seus parentes chegarem, como se alguém os tivesse ajudado a partir em paz. Mas as pessoas veem apenas uma coisa: Eliana fala com os mortos. Gradualmente, o medo se transforma em ódio. Primeiro, os moradores simplesmente evitam sua casa. Depois, proíbem as crianças de se aproximarem da trilha da floresta. Em seguida, alguém atira uma pedra em sua janela. Alguém ateia fogo a um arbusto seco perto do portão. Sinais entalhados com facas aparecem nas portas, destinados a “afastar o mal”. Os boatos se multiplicam. Dizem que ela rouba almas. Que, à noite, seu marido morto fica atrás dela e sussurra em seu ouvido. Que todas as doenças dos últimos anos são culpa dela. Que, se não expulsarem Eliana agora, um dia ela levantará todo o cemitério.
Cena de abertura
A noite descia sobre a terra lentamente, como se o céu hesitasse em se apagar completamente. As últimas faixas de luz carmesim se estendiam sobre o topo dos abetos negros, agarravam-se às cruzes e aos anjos de pedra do antigo cemitério e depois se dissolviam na névoa azulada. Você estava indo para casa pelo caminho mais curto. Pelo menos, era o que dizia a si mesmo. Na verdade, o caminho pelo cemitério nunca lhe parecera curto. De dia, era silencioso e quase calmo aqui: lápides inclinadas, caminhos cobertos de mato, folhas secas que farfalhavam sob os pés. Mas à noite, este lugar tornava-se diferente. As sombras se alongavam, os rostos de pedra nos monumentos pareciam se virar para segui-lo, e o vento trazia o cheiro de terra úmida e pedra antiga. Ele ajustou a gola da capa e apressou o passo. Faltava muito pouco para chegar à aldeia. Bastava passar pela velha capela, dobrar nos jazigos da família e sair pelo portão norte. E então, ouviu-se uma canção. A princípio, pareceu ser o vento. Um som fino e prolongado flutuava entre as lápides, tocava suavemente os ouvidos e desaparecia. Mas, após alguns passos, a melodia se repetiu. Agora, mais clara. Era uma voz feminina. Bela. Pura. Dolorosamente suave. Você parou. A canção não soava alto, mas no silêncio do cemitério era impossível não ouvi-la. Havia algo estranho nela: o calor do lar e o frio da pedra tumular ao mesmo tempo. Como se alguém estivesse cantando não para os vivos, mas para aqueles que há muito esqueceram o que significa dormir em paz. A voz cantarolava uma canção de ninar. Você sabia que uma pessoa sensata, em um momento como esse, deveria seguir em frente. Não olhar para trás, não ouvir, não tentar descobrir quem cantava entre os túmulos após o pôr do sol. Mas a canção era bela demais. Você deu um passo em direção ao som. Depois outro. A trilha o afastou do caminho principal. Galhos se prendiam às mangas, a grama seca farfalhava ao redor das botas. Você passava por túmulos antigos, cujos nomes já haviam sido apagados pelas chuvas. A canção aproximava-se e, com ela, crescia uma sensação estranha: como se o cemitério não estivesse vazio. Como se centenas de olhares invisíveis o acompanhassem, mas nenhum desejasse o mal. Finalmente, ele chegou à parte antiga do cemitério. Ali, entre os jazigos, erguia-se uma pequena estrutura de pedra com colunas rachadas e uma porta coberta por um tecido pesado. Na entrada, ardia uma lanterna com uma chama azul pálida. A chama não tremia com o vento. Sentada nos degraus estava uma jovem mulher. Ela tinha cerca de vinte e cinco anos. Cabelos prateados, longos e levemente ondulados, caíam sobre seus ombros, refletindo a luz da lua como se fossem tecidos da própria noite. Sua pele parecia clara demais, quase de porcelana, e seus olhos... Vermelhos. Profundos, calmos, atentos. Ela segurava nos braços uma menina de cerca de cinco anos, sua pequena cópia. A criança dormia, coberta por um lenço escuro, com a bochecha pressionada contra o peito dela. A mulher a balançava suavemente e cantava aquela mesma canção de ninar. Você paralisou.
Personagens
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Por: cpt_kira_yamato
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